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Bolsonaro, o mensageiro do caos

Vivemos a era da economia e do descrédito profundo da política

| ACidadeON/Araraquara

O presidente Jair Bolsonaro (Foto: Reuters/Folhapress)
Amanhecemos de luto. Primeiro, em virtude das mais de 18.900 vidas ao redor do globo que já foram ceifadas por essa que é, sim, a pior pandemia do século XXI e a grande responsável pelos impactos ainda incalculados na economia global.
Mas amanhecemos de luto também pela razão. Explico. Quando as convicções pessoais, ideológicas ou religiosas superam os fatos e dados, cedemos o espaço do argumento e conhecimento racional para o âmbito da crença cega. Veja, não se trata de fé aqui, mas de ignorância a respeito da realidade.  

Na noite de ontem, em rede nacional, o presidente da república Jair Bolsonaro fez um pronunciamento à nação convidando-a à um genocídio. Ao insistir que a pandemia do Covid-19 é uma mera "gripezinha" e ao sinalizar que é preciso acabar a histeria coletiva a respeito da doença em virtude da retomada da normalidade de funcionamento de comércios, empresas e escolas, o presidente passou a relativizar a vida. Isso mesmo, ao externar essa visão ele diz de forma cristalina que algumas vidas valem menos que as outras. Isso não é um deslize. Ao que tudo indica é a visão de mundo de quem está sentado na cadeira presidencial legitimado ao exercício do poder político no principal cargo do país por mais de 55 milhões de votos no último pleito em 2018. 

Mas não é só isso. O presidente explicitou ontem o seu maior temor: a possibilidade de entrarmos em uma depressão econômica inédita também no século XXI.  

Todos estamos cientes da gravidade dos problemas que enfrentamos e, nesse quesito, o presidente não está equivocado em se preocupar com o futuro da economia. Ele está completamente enganado quanto a solução apresentada: pedir para que as pessoas retornem às suas atividades laborais e, portanto, saiam do isolamento recomendado pela maioria dos líderes políticos sérios do planeta e fortemente recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde). 

Neste momento, até uma criança sabe que é preciso nos protegermos do desconhecido, higienizarmos as mãos, evitarmos o contato com o outro. Isso é um gesto de amor ao próximo, tal como ensinado por várias religiões.  O desafio é que a sobrevivência advém do trabalho e, portanto, da capacidade de alguns em gerar renda para o sustento de suas famílias e do desejo de outros em manter lucros e patrimônios. É a lógica do sistema ao menos desde o fim da Idade Média e o advento dos modernos mercados que já nasceram globalizados.  

Vivemos a era da economia e do descrédito profundo da política. Os mercados engoliram há muito tempo a política, tornando-a um de seus braços mais importantes. Contudo, em uma situação dramática como essa, a política é chamada para resolver o problema, porque o próprio mercado se vê na eminência de um colapso se não for, de alguma forma, protegido. O capitalismo traz essa contradição em seu DNA, se for deixado à própria sorte, colapsa.
Portanto, por aqui, assim como mundo a fora, empresas pressionam pesadamente os políticos para acharem caminhos, darem respostas, tentarem manter de alguma forma o status quo. Mas sabemos que é impossível porque os efeitos já são sentidos. Desde a padaria do seu zé na esquina até a multinacional.  

É em um momento como esse que é exigido dos nossos líderes e representantes, inteligência, capacidade de negociação e articulação dos múltiplos interesses, diálogo e escuta. Não é jogando com a barbárie que enfrentaremos o caos. Se fizermos isso o custo humanitário será elevadíssimo e a História já prepara a caneta para deixar registrada tais atitudes. É o momento da grande política, de fazer o máximo possível para manter empregos e utilizar, de forma adequada, os instrumentos de política econômica à disposição do Estado. No entanto isso exige, acima de tudo, coragem frente ao medo. Externar o medo atacando ao outro é o caminho da desintegração social e do verdadeiro pânico coletivo.    

Mas não bastasse toda essa situação, a realpolitik é ainda mais dura! O ministro da saúde, Mandetta, é o termômetro do dia e já perdeu o jogo. Se endossar o que Boslonaro verbalizou em seu pronunciamento à nação e adotar a recomendação de isolamento vertical para o país - resguardar principalmente os idosos e os pertencentes à grupos de risco liberando os demais para prosseguirem normalmente com as suas atividades - perde a credibilidade na opinião pública que ganhou nas últimas semanas e, portanto, fica completamente enfraquecido. Se refutar, provavelmente vai ser convidado pelo presidente a pegar as suas coisas e sair do Ministério da Saúde. Pode haver uma terceira possibilidade, mas esta é praticamente impossível: Bolsonaro recuar e modular seu posicionamento após reunião com os ministros e comitê de crise de combate ao coronavírus. A conferir. 


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