Olha o Fundão aí!

é ano eleitoral e se não falarmos sobre isso corremos o risco de as eleições passarem de maneira muito discreta como o pleito de 2016

| ACidadeON/Araraquara -

Imagem ilustrativa (Foto: divulgação/Pixabay)
Em Brasília é sempre assim: tudo junto e misturado. As novidades abundam a cada segundo. No entanto, até agora, da parte do Legislativo, seguimos sem grandes novidades por hora. Da parte do Judiciário, na figura do STF, surgem sempre declarações ácidas contra Bolsonaro. Já da parte do Executivo, segue tudo como de costume: Bolsonaro diz ser o melhor presidente da galáxia enquanto o Ministério da Saúde nem os dados de mortes pelo coronavírus está afim de divulgar no pior momento da pandemia. E assim, "la nave va".  

Mas quero chamar a atenção aqui para outro lugar, afinal, é ano eleitoral e se não falarmos sobre isso corremos sério risco de as eleições passarem de maneira muito discreta como o pleito de 2016. Vamos olhar para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), órgão da justiça responsável pelas eleições. Ontem foi divulgado pela corte o total da distribuição do pouco mais de 2 bilhões de reais do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) entre os 33 partidos políticos registrados atualmente. Vale destacar que, diferente dos recursos do Fundo Partidário hoje em dia na casa do 1 bilhão de reais anualmente distribuídos entre os partidos em doze parcelas, sendo 5% do total dado de maneira igualitária entre as siglas e 95% com base na proporção de votos obtidos pelos partidos na Câmara dos Deputados na última eleição o FEFC vem de uma só vez para os diretórios nacionais dos partidos.  

Portanto, você já deve estar se perguntando: como esse recurso todo é distribuído internamente nas siglas? Meus amigos, eis aí o grande "x" da questão. Varia mais que receita de bolo de fubá de vó. Afinal, nesse aspecto, os partidos são muito pouco transparentes, além de bem diferentes entre si. Nem vamos entrar nessa seara, senão o texto não terá fim. Nos concentremos na distribuição formal do FEFC.  

De maneira simples, dentre o pouco mais de 2 bilhões, 2% desse valor é dado igualitariamente entre os partidos, mesmo que eles não possuam representação no Congresso Nacional. Esse valor, em 2020, é de cerca de 1,2 milhão de reais por partido. Depois de respeitada essa distribuição, o restante do fundo deve ser dividido da seguinte forma: 35% destinado aos partidos que elegeram pelo menos um deputado federal nas últimas eleições nacionais. Aqui, com base no resultado de 2018, estamos falando de 30 dentre os 33 partidos. Embora alguns partidos tenham mudado de nome e outros cogitem ainda realizar fusões, o fato é que a maioria dos partidos brasileiros recebe recursos nessa parte da distribuição também. Outros 48% do fundo são distribuídos conforme a representação dos partidos na Câmara dos Deputados. Ou seja, quem elegeu mais parlamentares em 2018 recebe quantia maior do que os partidos que elegeram menos. Por último, os 15% restantes do fundo são distribuídos com base na representação dos partidos no Senado. Em resumo: os critérios de peso do partido em termos de representação no Congresso condicionam a maioria da distribuição dos recursos. Partido aqui importa, e muito.  

Dito isso, quais os partidos são os mais poderosos para financiar as campanhas em 2020? Para quem estava atento, acompanhamos no país diversas migrações (troca de partidos) por vereadores entre março e abril deste ano no período chamado de janela partidária. Muitas dessas migrações foram motivadas, sobretudo, pelo vislumbre dos parlamentares em captar uma parte desse recurso para as suas campanhas. Afinal, seja nos meios digitais ou presenciais, campanha eleitoral custa caro. 

Para facilitar o nosso olhar para esses partidos, vou dividi-los aqui em quatro classes diferentes, só para fins didáticos. Dentre os partidos pertencentes à classe dos "mais pobres", estão aqueles que receberão apenas os cerca de 1,2 milhões cada. São  siglas nanincas, sem representação política no Legislativo Nacional, aparecendo aqui: PCB, PCO, PMB, PRTB (partido do vice-presidente Mourão e do seu amigo Leviy Fidelix, aquele do aerotrem), PSTU e a União Popular, último partido a conseguir registro no TSE a tempo de disputar as eleições deste ano, posto que, no outro extremo do espectro ideológico, o Aliança Pelo Brasil (partido que Bolsonaro quer chamar de seu) ainda não saiu do papel. Depois, temos os partidos da "classe média baixa", que vão desde a Demcoracia Cristã (DC), do conhecido "Eymael, um democrata cristão" com os seus pouco mais de 4 milhões, até o PCdoB, com cerca de 30 milhões. Aparecem aqui nessa classe as seguintes siglas: PTC (5,6 mi), PMN (5,8 mi), REDE (20,4 mi), PV (20,5 mi), PATRIOTA (27,4 mi, aquele do Cabo Daciolo, lembram?) e o AVANTE (28,1 mi).  

A partir daí temos os partidos "classe média": que vão desde o PSC com cerca de 33 milhões até o PDT de Ciro Gomes e Lupi, com quase 100 milhões, batendo na trave dos mais ricos. Pertencentes à essa classe temos ainda: PROS (44,6 milhões), PODEMOS (88,6 mi) que deseja a todo custo trazer Sérgio Moro para a sigla mirando em 2022 e que pretende ser o partido herdeiro da pauta lavajatista; SOLIDARIEDADE (42,2 mi), o qual teve uma de suas principais lideranças condenadas dias atrás pelo Supremo, Paulinho da Força; CIDADANIA (39,4 mi), ex-PPS; NOVO (36,5 mi) e; PTB (35,1 mi), que possui nada mais, nada menos que Roberto Jefferson na presidência nacional da sigla, o que dispensa comentários.   

Para fechar, no topo da lista, temos os partidos da classe alta, os "ricos" do Brasil. Vão desde o REPUBLICANOS (104 mi), partido ligado a Edir Macedo que contou com o reforço dos filhos de Bolsonaro, Flávio e Carlos que vieram para a sigla em março deste ano, até os dois mais ricos: PT (com quase 201 milhões), partido mais de Lula que dos trabalhadores, e o PSL, ex-partido do presidente, que cresceu astronomicamente em 2018 na onda bolsonarista e morderá quase 194 milhões. Ainda dentre os mais ricos, temos: PSD (157,1 mi) partido do astuto Gilberto Kassab; MDB (154,8 mi) o qual continua ainda como a principal força política nos municípios até o momento e amargando em suas fileiras pessoas jovens como Temer e Romero Jucá; PP (140,2 mi) partido de figurinhas conhecidas na política nacional, como o deputado Arthur Lira que deseja ser o próximo presidente da Câmara dos Deputados na sucessão de Rodrigo Maia e o famoso Maluf, fora do jogo eleitoral; PSDB (126 mi), amplamente dividido entre os seguidores de Dória e outras figuras de destaque; PL (123,2 mi), que embora tenha na presidência nacional Tadeu Candelária, sabe-se muito bem nos bastidores que é controlado por Valdemar Costa Neto; DEM (114,5 mi), que possui vários "emes" de destaque nacional, Magalhães (ACM Neto é o presidente nacional), Maia e, agora, Mandetta; PSB (109,4 mi) partido até então comandado pelos Campos.  

Enfim, é por meio de todos esses valores mais os recursos do Fundo Partidário (em tese) que ocorrerá o financiamento do pleito de 2020. Fora doações dos próprios candidatos e outras possibilidades previstas nas leis e algumas não previstas, mas habilmente articuladas pelos políticos profissionais, alguns deles listados até aqui. Se seguirmos a lógica dos últimos anos, já dá para imaginarmos quais partidos serão os maiores vencedores Brasil a fora, não é mesmo? Afinal, dinheiro é importante nas eleições.