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O futebol brasileiro precisa de reformas

O calendário de 2020 é a cara da CBF pós 7x1, que tenta reorganizar o futebol brasileiro em um processo permeado de contradições

| ACidadeON/Araraquara

Rogério Caboclo, que assumiu a presidência da CBF nesse ano. (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)
A CBF divulgou na semana passada o calendário de 2020 do futebol brasileiro e como tudo que envolve a entidade, tivemos polêmicas.  

Para o calendário do ano que vem, a confederação alardeou como grande virtude o fato de que os campeonatos nacionais parariam nas Datas FIFA. Isso significa que os jogos dos clubes não ocorreriam mais concomitantemente com partidas das seleções. O grande objetivo dessa medida seria impedir que os times fossem prejudicados pela convocação de seus jogadores para representarem seus respectivos países.  

Contudo, em se tratando de CBF, as coisas nunca são o que parecem.  

Primeiramente, os jogos no Brasil não pararão durante a Copa América e os Jogos Olímpicos do ano que vem, que por razões distintas estavam fora do calendário da FIFA. Com essa decisão, ocorrerão dez jogos do Campeonato Brasileiro mais de um quarto do campeonato , enquanto a competição sul-americana estiver acontecendo, e outros dois jogos do Brasileirão, jogos de volta das oitavas de final da Libertadores e Sul-Americana, e jogos de volta das quartas de final e de ida da semifinal da Copa do Brasil, durante o torneio de Tóquio.  

Os jogadores convocados para uma, ou outra competição, podem ficar de fora de todas essas partidas.  

Em segundo lugar, a CBF agendou jogos para um ou dois dias depois das Datas FIFA. Ou seja, é como se a confederação acreditasse que fosse possível um jogador disputar uma partida por sua seleção na altitude de La Paz e, no dia seguinte, jogar com plenas condições físicas pelo seu clube em qualquer lugar do nosso país continental.  

Portanto, em síntese, a CBF mentiu. Comecem a torcer para os jogadores do seu time do coração não serem convocados.  

Outras mudanças para 2020 são a criação de uma Supercopa do Brasil, disputada em jogo único entre os vencedores da Copa do Brasil e do Brasileirão, e a redução das datas dos campeonatos estaduais, o verdadeiro calcanhar de Aquiles do calendário nacional.  

O ponto verdadeiramente positivo do calendário de 2020 é o novo formato da quarta divisão do Campeonato Brasileiro, que diz respeito diretamente à nossa Ferroviária.  

A Série D, a partir do ano que vem, será precedida por uma fase preliminar com 8 clubes, contando com a participação de 64 times em sua fase principal. As equipes serão divididas em oito chaves, com jogos de turno e returno, em que os quatro melhores colocados de cada grupo se classificam para as oitavas de final. O acesso para a Série C será conquistado pelos times que chegarem até as semifinais.  

Com isso, o campeonato passa de 16 para 26 datas. Esse ano, a competição foi jogada de 4 de maio a 18 de agosto, enquanto no ano que vem o torneio acontecerá de 3 de maio a 22 de novembro. Essa medida é significativa para que os clubes distantes da elite do futebol tenham o mínimo de estabilidade para se organizarem.  

Em 2017, dos 662 times do futebol brasileiro, uma média de 530 não tinham calendário para jogar durante o ano todo. Nos anos de 2015 e 2016, dos mais de 20 mil atletas profissionais de futebol registrados no Brasil, em média 59% deles terminavam o ano sem vínculos empregatícios. Essa é realidade do futebol no país de Caça-Rato, contado por Xico Sá, em que "Estádio não é arena, não se sabe quem governa, e o Santa Cruz é muito mais que a seleção brasileira".  

Com isso, o calendário de 2020 é a cara da CBF pós 7x1, que tenta reorganizar o futebol brasileiro em um processo permeado de contradições, que pensa justificar-se sob o argumento de uma modernização em curso, que é lenta, gradual e segura.  

O futebol brasileiro precisa de reformas, não de reparos.

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