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O futebol brasileiro é, cada vez mais, um grande clichê

Seria positivo que, pelo menos dessa vez, os clubes sustentassem as escolhas que fizeram no início da temporada, sem sucumbir à pressão por resultados imediatos

| ACidadeON/Araraquara

 

Vanderlei Luxemburgo e Tiago Nunes no ano passado, quando treinavam Vasco da Gama e Atlhetico Paranaense, respectivamente. (Foto: Dhavid Normando/Futura Press/Estadão Conteúdo)

Nessa quinta-feira (10), Corinthians e Palmeiras jogarão o primeiro dérbi na recém-batizada Neo Química Arena e o resultado final do confronto pode elevar ainda mais a temperatura da panela de pressão que estão Tiago Nunes e Vanderlei Luxemburgo.  

Há quem acredite, inclusive, que o treinador derrotado na reedição da final do Campeonato Paulista de 2020 perderá também o emprego. O que é possível, já que o futebol brasileiro é, cada vez mais, um grande clichê e a demissão de qualquer técnico após um mau resultado em um clássico é um notícia nova que já nasce velha. 

Entretanto, da mesma forma que o desempenho insatisfatório das duas equipes e a impaciência dos torcedores para o desenvolvimento de um time advogam para que Corinthians e Palmeiras troquem seus treinadores, vejo outros elementos que, em uma perspectiva mais global, justificam também a permanência de ambos.  

Do lado corintiano, Tiago Nunes foi contratado com o objetivo de mudar a cultura de jogo do Corinthians, implementando uma ideia de futebol diferente do jogo defensivo que caracterizou a era vitoriosa do clube com Mano Menezes, Tite e Fábio Carille -- com exceções que justificam a regra, a exemplo do time campeão brasileiro em 2015.  

Essa transição está em curso e pode ser verificada dentro de campo, mesmo com a baixa performance. Contudo, é necessário, pelo menos, uma temporada completa para que esse processo seja avaliado, ainda mais levando em conta
o ano atípico que estamos, em virtude da pandemia do novo coronavírus.  

Além disso, considerando as últimas campanhas do Corinthians no Brasileirão, o clube terminou os anos de 2018 e 2019, respectivamente, em 13º e 8º na tabela de classificação. Por isso, a expectativa para essa temporada não deve ser um cavalo de pau que leve o time a brigar pelo título do Campeonato Brasileiro, até porque, o elenco corintiano não está entre os melhores do Brasil e a dívida da Arena limitou bastante a atuação alvinegra no mercado de transferência. Desse modo, a cobrança por resultados imediatos deve ser recalibrada. Na minha leitura, o Corinthians briga por uma vaga na Libertadores do ano que vem e só.  

Do lado palmeirense, mesmo com os problemas estruturais na produção ofensiva, em relação aos resultados, estamos falando de um time que foi campeão estadual após 12 anos de espera -- apesar de não servir de parâmetro para o restante da temporada, vide o próprio Corinthians dos últimos anos -- e que até o momento não foi derrotado no Campeonato Brasileiro e na Copa Libertadores.  

No que se refere ao elenco, Luxemburgo tem cumprido o objetivo de conduzir a transição das jóias da base palmeirense para o time profissional. Foi com ele que Patrick de Paula, Gabriel Menino, Gabriel Verón, Wesley, e etc., ganharam espaço e protagonismo nos jogos do Palmeiras. Além do mais, o clube perdeu Dudu, seu principal jogador e componente central para o estilo de jogo que Luxa vinha desenvolvendo e, ao contrário do que fez nos anos anteriores, nessa temporada o clube contratou apenas Viña e Rony, o que coloca seu elenco no mesmo nível de seus rivais -- e abaixo do Flamengo, por óbvio.  

Não dá para cravar que o futuro de Corinthians e Palmeiras será exitoso com Tiago Nunes e Vanderlei Luxemburgo. Entretanto, o fracasso à longo prazo também é incerto.  

Seria positivo que, pelo menos dessa vez, os clubes sustentassem as escolhas que fizeram no início da temporada, sem sucumbir à pressão por resultados imediatos.  

Mas, já conformado, sei que isso não vai acontecer.

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