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O Fifa The Best e o futebol que deixou de ser arte

O futebol também é interpretação e nada é mais importante do que a sua própria sensibilidade para o jogo

| ACidadeON/Araraquara

 

O atacante Lewandowski, ao centro, é favorito para vencer o Fifa The Best contra Messi e Cristiano Ronaldo. (Foto: Getty Images)

O Fifa The Best é o sintoma de um futebol que deixou de ser vivido como arte para se transformar em um problema matemático resolvido em uma planilha de Excel.

O prêmio de melhor jogador do mundo tem sido, cada vez mais, direcionado diretamente para o melhor jogador do time que venceu o campeonato mais importante da temporada (ou seja, ou a Liga dos Campeões, ou a Copa do Mundo), o que não necessariamente aponta para o atleta que apresentou o melhor desempenho individual durante esse período. Além disso, na era do algoritmo, em que a ditadura da objetividade busca reduzir nossos sentimentos em números, a disputa entre os craques se tornou, na realidade, um torneio estatístico.

Com isso, o debate sobre futebol se tornou um terreno infértil: na indicação dessa temporada, que conta com Messi, Cristiano Ronaldo e Lewandowski, todos nós sabemos que o polonês, que venceu todos os títulos com o Bayern de Munique e marcou surpreendentes 55 gols em 47 jogos, levará o prêmio para casa. O que não é, necessariamente, injusto, mesmo que caiba discussão, até mesmo, se Lewandowski foi o melhor jogador do clube bávaro na temporada.

Se fosse sempre assim, em 2004, Ronaldinho Gaúcho não teria sido eleito o melhor jogador do mundo. Naquela temporada, Ronaldinho não havia vencido nenhum caneco com a camisa do Barcelona, ficando em segundo lugar no Campeonato Espanhol e sendo eliminado nas oitavas-de-final da Liga Europa, com 22 gols marcados e 11 assistências. O brasileiro, portanto, sequer disputou a Liga dos Campeões em 2003/2004. Do outro lado da disputa, estavam Thierry Henry, campeão inglês invicto com a camisa do Arsenal, com 39 gols anotados em 51 jogos, e Andry Shevchenko, artilheiro e campeão do Campeonato Italiano com o Milan. Ambos haviam sido eliminados nas quartas-de-final da Liga dos Campões, que foi conquistada pelo Porto de José Mourinho.

Seguindo os critérios dos que querem transformar o futebol em uma ciência exata, o prêmio deveria ser de Henry -- o que também não seria injusto --, e Ronaldinho Gaúcho poderia, no máximo, figurar em terceiro lugar. Contudo, Ronaldinho foi justamente nomeado o melhor jogador do mundo porque, para além dos índices estatísticos e das taças, ninguém naquela temporada foi capaz de nos fazer sentir o jogo como ele. A originalidade se sobrepunha à quantidade.

Do mesmo modo, Cruyff e Maradona nunca fizeram 50 gols em um mesmo ano e não há dúvida de que ambos jogaram mais futebol do que Lewandowski.

Dito isso, não se trata de minimizar o que fizeram Cristiano Ronaldo e Messi na última temporada. O gajo anotou 37 gols pela Juventus, o que ninguém havia feito desde 1930, enquanto o argentino balançou as redes 31 vezes e deu 25 assistências em um arremedo de Barcelona. Entretanto, pelo encantamento, Neymar e De Bruyne mereciam completar o pódio com Lewandowski.

Enquanto o camisa 10 da seleção brasileira se tornou arco e flecha, com assistências e gols, armando o time do Paris Saint-Germain e distribuindo dribles como se não houvesse limites para a alegria, De Bruyne é um "todo-campista", conduzindo e tirando de apuros o Manchester City de Pep Guardiola que passou por um ano oscilante.

O futebol também é interpretação e nada é mais importante do que a sua própria sensibilidade para o jogo. Esses são meus três melhores jogadores do mundo.

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