O Palmeiras foi o maior campeão do ano que não terminou

Abel Ferreira conseguiu encontrar uma linha de desenvolvimento contínuo que tornou possível vencer a oscilação

| ACidadeON/Araraquara -

Na temporada de 2020, o Palmeiras foi campeão do estadual, da Copa do Brasil e da Libertadores. (FramePhoto/Folhapress)
Na temporada mais atípica da história do futebol mundial, o Palmeiras transformou a regularidade em virtude e se tornou o principal campeão do nosso ludopédio no ano que ainda não terminou.  

Dentro das quatro linhas, a equipe viveu rompantes de genialidade contra o River Plate, que esteve como inquilino no estádio Libertadores da América, e diante do Corinthians, no derby do desequilíbrio. Em ambos os jogos, o Palmeiras expressou a sua melhor versão, mesmo que existam nuances estratégias distintas considerando cada um dos confrontos. Um ataque vertical e implacável ao ferir as lacunas deixadas pelos adversários, com adornos mágicos que seriam bem representados se o chapéu de Scarpa em Armani, que terminou com a bola balançando o barbante, não tivesse sido injustamente anulado -- a beleza não pode ser derrotada pela regra.

Entretanto, o percurso que fez o Palmeiras empilhar taças não foi marcado pelo encantamento, mas por uma objetividade insuportável. Em meio aos percalços da temporada, gerados por lesões e pela pandemia, entre jogos bons e ruins e um calendário de partidas desumano, Abel Ferreira conseguiu encontrar uma linha de desenvolvimento contínuo que tornou possível vencer a oscilação, adversário que não foi superado por nenhum outro clube.

Porque, se sem paixão não se chupa nem um Chicabon, sem constância não se vence nem no jokenpô.

Em campo, a mensagem uníssona com a bola foi potencializada pelo hibridismo tático. O alviverde formou um repertório coletivo versátil que fez com que o time se apresentasse competitivo nos contextos mais variados. Além disso, há uma democratização do protagonismo na equipe. Se o dono das finais da Copa do Brasil foi Raphael Veiga, nas semifinais da Copa Libertadores, foram Gabriel Menino, no jogo de ida, e Weverton, na volta, que levaram o Palmeiras para a decisão do torneio. O mesmo vale para Luiz Adriano e Patrick de Paula, em momentos distintos contra o Corinthians, assim como Rony, em todo segundo semestre, e Gustavo Gómez, simplesmente sempre. Danilo e Wesley também jogaram como gente grande.

A ideia de um time em que todos podem se te tornar herói foi simbolizada pela cabeçada de Breno Lopes, em pleno Maracanã (aglomerado de torcedores, mas esvaziado de empatia), no último minuto da partida, que valeu o título mais importante do século.

Sobre o Mundial: o quarto lugar denúncia mais o mal-estar do futebol brasileiro e o nosso permanente estado de negação, do que as fragilidades da equipe.

Para a nova temporada que se inicia, o principal desafio do Palmeiras -- não por acaso -- é o mesmo de toda a humanidade: deixar 2020 para os livros de história e calendários amarelados esquecidos pela casa. Assim como nos tornamos reféns da nossa própria tragédia, o Palmeiras não pode ficar preso ao sucesso que conquistou. Até porque, o ano precisa terminar para que o clube possa ser campeão de novo.

De qualquer modo, 2020 já está marcado eternamente. Para o palmeirense, com motivos para celebrar.