Aos torcedores, ficam o vice-campeonato e o justo orgulho

Hoje, contra a Ferroviária, o Palmeiras inicia uma nova etapa no processo de desenvolvimento do time para a temporada de 2022

| ACidadeON/Araraquara -

Abel Ferreira, treinador do Palmeiras, na final do Mundial de Clubes contra o Chelsea. (Foto: GIUSEPPE CACACE/AFP via Getty Images)
  

Já se tornou até um clichê, mas mais uma vez, Abel Ferreira tinha um plano.


Para competir contra um adversário indiscutivelmente superior, o treinador português reorganizou o Palmeiras para se defender com uma linha de 6 defensores, mudando o posicionamento de Rony. Contra o Chelsea, o atacante que, na maioria das vezes, atuou como o jogador mais avançado no sistema ofensivo palmeirense, foi deslocado para recompor defensivamente pelo corredor direito, marcando Callum Hudson-Odoi individualmente. Do lado oposto, Gustavo Scarpa cumpriu a mesma função, incumbido de acompanhar Azpilicueta. Por dentro, Marcos Rocha marcou Havertz e Piquerez cuidou de Mason Mount, possibilitando que Gustavo Gómez e Luan enfrentassem Lukaku.

Portanto, para conter um Chelsea que posicionava cinco jogadores no ataque, Abel Ferreira priorizou criar superioridade numérica em sua defesa, fazendo exatamente o contrário do que foi feito pelo Al Hilal nas semifinais do Mundial de Clubes. Deu certo.

Entretanto, para aqueles que observam os dados estatísticos de posse de bola como se fossem uma verdade em si mesma, há uma crítica enviesada ao comportamento coletivo assumido pelo Palmeiras na final da competição, como se o clube tivesse se apequenado contra o time londrino.

Nos primeiros 45 minutos da decisão, seu adversário ficou 71% do tempo com a posse de bola. Contudo, em número de finalizações, se o Chelsea chutou dez vezes, cinco dentro da área e somente uma em direção ao gol, o Palmeiras arrematou oito vezes, também cinco dentro da área e uma na direção da meta rival. Ou seja, a produção ofensiva das equipes na primeira etapa foi basicamente a mesma.

Há quem valorize o desempenho do Flamengo de Jorge Jesus no Mundial de 2019 para menosprezar a estratégia palmeirense. Ora pois, na finalíssima contra o Liverpool, o rubro-negro demorou 120 minutos para finalizar as mesmas oito vezes que o Palmeiras conseguiu em único tempo.

Por um momento, o Palmeiras competiu de igual para igual contra o Chelsea, assim como fez o Flamengo frente ao Liverpool. Ambos seguiram pelo mesmo caminho, ao potencializar seus conjuntos coletivamente para dirimir a discrepância técnica com seus adversários.

Nesse sentido, o futebol é um fenômeno complexo, podendo ser observado e apreciado em diferentes perspectivas. Entretanto, quem busca abordar o jogo por um prisma analítico, é importante que esteja consciente de que as preferências individuais e estéticas em relação ao jogo nada tem a dizer sobre o que acontece dentro de campo, do mesmo modo que não existe um "jeito certo" de se jogar futebol. Essa posição frente ao ludopédio, inclusive, menospreza a beleza das diferentes escolas e maneiras de praticar o jogo. A criatividade não reside somente em um drible e o futebol está para além de nossas frívolas idealizações.

Não por acaso, foi justamente a partir da segunda etapa, quando Abel Ferreira desfez a linha de 6 defensores e avançou Rony para ocupar o campo de ataque, que o Palmeiras deixou de ser competitivo e se tornou vulnerável contra o Chelsea, nos revelando também que, para além dos nossos desejos e vontades, existem limitações objetivas que são impostas pelo próprio jogo jogado.

Por isso, não tenhamos dúvidas, dificilmente o Palmeiras poderia ter feito mais do que fez no Emirados Árabes Unidos. Aos torcedores, ficam o vice-campeonato e o justo orgulho.

Hoje, contra a Ferroviária, o Palmeiras inicia uma nova etapa no processo de desenvolvimento do time para a temporada de 2022. Nesse momento, resgatar a fome dos meninos que foram fundamentais nas conquistas da Libertadores e Copa do Brasil é o primeiro passo.

O torcedor afeano torce para que a velha história não seja resgatada na Fonte Luminosa.