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Claudio Claudino, o menino negro que se tornou um dos grandes empresários de Araraquara

Aos 60 anos o empresário conta como venceu as barreiras do preconceito e hoje defende o direito e a cultura negra na cidade

| ACidadeON/Araraquara

Claudio Claudino, empresário em Araraquara (Fotos: Amanda Rocha)
Ele aprendeu a ler nos jornais das casas onde sua mãe trabalhava. Estudou, trabalhou muito e se tornou um dos empresários do setor varejista mais bem-sucedidos de Araraquara. Claudio Claudino, de 60 anos, mostra como o pobre, negro, filho de um operário e uma empregada doméstica venceu as barreiras do preconceito e hoje é um dos nomes que defendem a cultura e o direito do negro em Araraquara.  

"Não temos muitos exemplos de negros bem-sucedidos, não aprendemos sobre negros na escola e isso é muito difícil. O negro não se enxerga na sociedade. Eu vim de uma família pobre, mas meus pais sempre me encucaram a ideia de se tornar uma pessoa de bem, com consciência social. Hoje eu sou uma exceção. Sou advogado, comerciante, gero empregos, dou palestras, sou o que chamam de bem-sucedido, mas a história está aí para mostrar que não é fácil. Eu lamento ser exceção à regra", diz ele.  
 
Claudio com os pais ainda menino (Foto: Arquivo pessoal)
Infância
Claudio recorda da sua infância com carinho. Seu pai, um retirante nordestino, veio para Araraquara como operário para construir o hospital Nestor Goulart Reis, em Américo Brasiliense. A mãe, lavadeira e empregada doméstica, trabalhou na casa do historiador Rodolpho Telarolli e foi lá, que Claudio teve acesso à livros e jornais e começou a ser alfabetizado. "Minha mãe sempre teve essa preocupação, de nós abrir portas. De mostrar o que o mundo tinha para oferecer e foi assim, lendo os jornais do professor Rodolpho que eu aprendi as primeiras palavras, isso marcou muito a minha história", recorda.  

Ainda criança começou a vender frutas, foi guarda mirim e também vendia amendoim no estádio da Ferroviária. "Acho que foi nesta época que aprendi a ser vendedor e me encontrei como vendedor", diz ele.  

Também trabalhou na fábrica de Meias Lupo, no antigo Jumbo Eletro, nas lojas Arapuã - quando rodou o Brasil até que chegou na empresa Magazine Luiza. "No Magazine Luiza tive uma excelente oportunidade de conhecer o que é o varejo. Trabalhei com ótimas pessoas que me ensinaram muito", diz ele.   

Claudio em sua trajetória profissional (Foto: Arquivo pessoal)
Empreendedorismo
Neste meio tempo, Claudio também se formou em Direito pela Universidade de Araraquara (Uniara), se casou com Eulália, 53, e teve dois filhos, Camila e Guilherme, hoje com 32 e 30 anos respectivamente.  

Na década de 80, Claudio e sua esposa decidiram investir em um supermercado e abriram o PaG PoKo, que se tornou uma rede local, com 300 funcionários, a maioria negros. "Em uma época em que ainda não se via negros trabalhando como frente de caixa, no meu supermercado, todos eram negros. Tive a primeira gerente de supermercado negra e mulher da cidade. Um jornal local chegou a publicar que eu praticava o racismo ao contrário e não contratava brancos", diz ele.  

Depois de alguns anos, a rede de supermercado foi vendida e Claudio investiu em uma loja de estofados e eletrodomésticos, o Galpão. "Estamos há 20 anos no mercado como uma das empresas mais fortes da cidade. Hoje temos mais de 50 funcionários, sendo que 50% são negros, focamos a inserção do jovem no mercado de trabalho, damos oportunidades para as mulheres, com salários iguais e dignidade", diz ele.   

Claudio Claudino, empresário em Araraquara (Fotos: Amanda Rocha)
Racismo não é mimimi
Claudio diz que sua trajetória pode ser comum a muitas pessoas, mas não para negros e pobres. "Infelizmente eu sou exceção, mas não deveria", diz ele. "Para chegar onde cheguei passei por dificuldades, ouvi muitas coisas, mas sempre tive em mente os ensinamentos de meus pais. Minha mãe principalmente que me ensinou a nunca abaixar a cabeça para o preconceito, me ensinou que todos nós somos bons em alguma coisa, basta reconhecer o talento e seguir firme no que se deseja", diz ele.  

Segundo Claudio, saber de onde se veio, quais são suas origens é sempre muito importante para a formação pessoal, mas infelizmente, os negros não têm isso. "Somos 53% da população, mas na escola você não aprende sobre cientistas negros, você não vê médicos negros e essa falta de visibilidade atrapalha", diz ele  

"Uma vez chegaram na loja e me disseram: estou procurando o Claudio, proprietário. Outra vez, em uma reunião de empresários me perguntaram quem era meu sócio. São coisas que parecem bobagem, o que hoje chamam de mimimi, mas não fazem estas perguntas para um branco", diz ele.  

Buscando as origens
Claudio diz que seu sonho é saber mais sobre seus ancestrais. "Isso também é curioso. O branco pode tirar cidadania, saber quem são seus ancestrais com facilidade. Com o negro não é tão fácil, porque não tem registro nenhum. Eu recentemente fiz o DNA África e meus ancestrais são de Serra leoa e Guiné Bissau. Agora, ano que vem, sonho em conhecer estes países", afirma.  

O Dia Municipal da Consciência Negra e dos Orixás feriado municipal, neste dia 20 de novembro, é um dia para se lembrar da nossa dívida com o povo africano, que foi tirado de sua terra para ser escravo e que ainda hoje sofre preconceito.  

"Não cobramos prioridades, queremos direitos iguais. Assistimos todos os dias jovens sendo barrados no mercado de trabalho por causa da sua cor, da sua aparência e isso não é certo. Tudo bem o negro ser faxineiro, motorista, mas quando o negro é empresário, advogado, ele foi privilegiado? Não é assim. Temos que ser respeitados. Nossa religião precisa ser respeitada, nosso povo, nossa cor, é isso que pedimos todos os dias", finaliza.