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Mulheres na pandemia e a vulnerabilidade silenciosa

Para a advogada Carla Missurino, números de violência contra a mulher não condizem com a realidade no isolamento social

| ACidadeON/Araraquara


Isolamento social faz com que mulheres convivam mais tempo com agressores (Foto: Amanda Rocha)

Casos de violência contra a mulher tem aumentado consideravelmente no confinamento compulsório imposto pela pandemia da covid-19, no Brasil e no mundo. Ao mesmo tempo, muitas mulheres acabam não denunciando a agressão por estarem mais fragilizadas em isolamento social convivendo com o agressor, e sem contato com familiares ou amigos.

Isso tem um efeito reverso e pode refletir em subnotificação nos casos de agressão. Ou seja, a violência seria maior do que o demonstrado. " A convivência intensa e a tensão do momento, somada ao próprio isolamento social que deixou a mulher longe da família e dos amigos contribuiu para os casos de violência doméstica. Dessa forma, elas ficaram confinadas com seus agressores e estão com mais dificuldades para denunciar", pontua a advogada Carla Missurino, uma das principais vozes e combatentes da violência contra a mulher na cidade.

Neste último domingo (05) Araraquara e Matão registraram dois graves casos de violência contra a mulher. Em um supermercado da cidade, uma mulher de 36 anos foi agredida por seu ex-namorado, de 39 anos, com uma barra de ferro. Ele ainda ameaçou atirar nas pessoas que estavam no local, e insistia para que ela reatasse com ele.

O homem a perseguiu até uma Unidade de Pronto Atendimento ( UPA), foi expulso do local e seguiu até a casa da ex-namorada. A Polícia Militar foi acionada porém não conseguiu prendê-lo em flagrante a tempo. A mulher tinha uma medida protetiva há um mês, que o impedia de chegar perto dela. O agressor está foragido.

Já em Matão, outra situação de extrema violência quase termina em tragédia. Um homem de 31 anos agrediu a mulher 28 anos e suas duas filhas, de 11 e 18 anos. Ele estava armado com um facão, e as filhas conseguiram pedir ajuda a tempo. Ele foi preso em flagrante e também havia desrespeitado a medida protetiva que a vítima tinha contra ele.

Segundo a advogada, dados divulgados pelo Centro de Apoio Operacional Criminal de São Paulo e Ministério Público demonstram que a violência aumentou entre 30 e 50% no Rio de Janeiro e em São Paulo, respectivamente, desde o início da pandemia.

"Em São Paulo no mês de março foram decretados 2.500 medidas protetivas, em fevereiro eram 1.934. Conforme se passa o tempo as queixas e medidas aumentam, assim como aumentaram também o número prisões em flagrante: de 177 em fevereiro para 278 em março", disse Missurino.

O disque denúncia 180 recebeu 40% a mais de denúncia só em abril, comparado com o mesmo período do ano passado, de acordo com o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMDH).

Já em Araraquara, de acordo com dados da Delegacia da Mulher, as denúncias diminuíram um pouco, se comparado a 2019. No primeiro semestre de 2019 foram solicitadas 318 medidas protetivas, sendo 310 medidas no primeiro semestre de 2020.

"Os números de violência doméstica desde o início da pandemia diminuíram mas foi pequeno, não é considerável em relação ao ano passado. Ressalto que houve uma ampliação dos meios de registro de boletim de ocorrência, agora também pela delegacia eletrônica. Antes da pandemia só era possível ser feita pessoalmente pela vítima" diz a delegada Meirelene Castro, responsável pela Delegacia da Mulher de Araraquara.

Já os casos de violência doméstica na cidade registraram aumento antes da pandemia da covid-19 e queda após março de 2020, início da quarentena. Em janeiro deste ano foram 123 casos de violência, enquanto em 2019 foram 116. Já em fevereiro foram 122 casos contra 89 no ano passado. De março a junho de 2020 os registros foram menores se comparados ao mesmo período de 2019: março teve 102 casos frente a 77 casos deste ano; abril 112 casos contra 51; maio diminuiu de 83 casos para 66; e junho teve queda de 115 para 86.

Para a advogada Carla Missurino, por conta do confinamento da pandemia do coronavírus muitas mulheres estão reféns dentro de casa. Assim, deixaram de denunciar porque também estão com os filhos em casa , já que as aulas escolares foram suspensas. Além de estarem afastadas de seus familiares, a insegurança e a tensão do atual momento somada as restrições financeiras dificultam ainda mais a denúncia e perpetua o ciclo de violência doméstica.

"Se já era complicado antes de sair de casa, imagina agora nessa época de confinamento, de ter que ficar dentro de casa? Com a consequência da dificuldade de contatar as autoridades porque estão confinadas é possível que os índices de denúncia diminuam, e isso causa um equívoco e impressão de estar havendo redução", alerta. Carla reforça que é imprescindível os vizinhos ficarem alerta também e denunciar pois o problema da violência é de todos. Buscar redes de apoio é fundamental.

PROTEÇÃO E REDES DE APOIO
A delegada Meirelene Castro reforça que as vítimas que possuem medida protetiva e estão sendo perseguidas devem comunicar a polícia imediatamente. "Desde mandar mensagem ou se o autor vai até a casa da vítima ou ao local de trabalho", enfatiza.

Caso o agressor esteja no local ele é preso em flagrante, caso contrário é necessário ir até a delegacia e fazer boletim de ocorrência para que a prisão preventiva seja executada, de acordo com a Lei Maria da Penha.

"Quando a vítima manifesta o desejo de ser abrigada ou não tem familiar ou pra onde ir, entramos em contato com o Centro de Refêrencia da Mulher (CRM) para procedimentos de abrigamento e acompanhamento psicológico", diz.  

Em Araraquara, além da Delegacia da Mulher que funciona normalmente na pandemia, e do CRM com plantão 24 horas, há redes de apoio às mulheres vítimas da violência, como o Coletivo Bennu e Promotoras Legais Populares (PLPs). 
"É importante buscar apoio e continuar denunciando, avisar os familiares, chamar a polícia e não ficar mais refém assim de seus agressores. Isso só aumenta esse ciclo de violência que pode gerar mais feminícidio", finaliza Carla Missurino.

PROCURE AJUDA AQUI

Delegacia da Mulher   

Alameda Rogério Pinto Ferraz 910, Jardim Primavera (16) 3336-4458   


Disque- denúncia 180

Delegacia Eletrônica 

www.delegaciaeletronica.policiacivil.sp.gov.br/ssp-de-cidadao/home

Centro de Referência da Mulher

Av. Espanha, 532 - Centro (16) 997620697

Coletivo Bennu

Promotoras Legais Populares de Araraquara

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