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Morador em situação de rua leu mais de 500 livros em Araraquara

Igmar Robson Zago é dependente químico e vive nas ruas, mas é apaixonado por literatura e lê diariamente

| ACidadeON/Araraquara

Igmar Zago é leitor voraz e está em situação de rua devido a dependência química (Foto: Amanda Rocha/ACidadeON)
 
Ele lê todo dia, é um leitor voraz, especialmente de literatura de ficção científica e suspense do escritor Stephen King. Nesta semana estava lendo um estilo um pouco diferente, "A menina que roubava livros", um best-seller dramático. 

Sua história não está longe de ser dramática também, entre altos e baixos. Igmar Robson Zago, araraquarense de 41 anos é dependente químico e está em situação de rua há anos. 

Entre idas e vindas em clínicas de recuperação, seu vício em álcool e drogas o acaba levando a morar nas ruas da cidade com frequência. Mas sempre está acompanhado de livros, estando sóbrio ou não.  

Igmar conta que já leu pelo menos 500 livros, é frequentador assíduo de um sebo da cidade, costuma ganhar e trocar também alguns livros que já leu.  

"Eu ganho livros das pessoas, sou viciado em Stephen King e Dan Brown, leio diariamente. Tudo o que eu leio eu explico, tenho facilidade de interpretação, estudei até a 8ª série e adoro leitura. Posso estar drogado, bêbado mas não paro de ler, é um vício", enfatiza.  

Ele conta que estava com uma bíblia rara esses dias mas uns "caras" o roubaram enquanto estava dormindo.   

Ele lê todos os dias e agora busca uma nova chance de se recuperar do vício das drogas (Foto: Amanda Rocha/ACidadeON)


ENTRE ALTOS E BAIXOS
Seu nome é uma homenagem a Ingmar Bergman, diretor sueco de cinema cult, e ele comenta que seu avô era um grande fã de cinema e um dos responsáveis pelos cinemas Plaza e Veneza. 

Igmar tem dois filhos, uma menina de nove anos e um adolescente, de 15. Hoje ele não tem contato com a família, que mora em Araraquara.  

Já foi pizzaiolo, cabeleireiro, garçom e conta que na juventude chegou a ser skatista amador. E foi nessa fase que conheceu o LSD, uma droga sintética alucinógena muito potente. Depois veio o crack e o vício em álcool e ele "desandou" na vida. 

"Já voltei pra minha casa, voltei pra rua várias vezes, já fui preso também, fiz muita besteira. Mas graças a Deus hoje eu pendurei as chuteiras, não quero mais saber de problema e não arrisco mais minha liberdade por nada", frisa.  

Seu único companheiro nas ruas é Bili, um cachorro vira-lata preto que não sai do seu lado e vice-versa. Bili tem até carteirinha de vacinação, é muito bem cuidado. 

Sobre uma nova internação ele comenta que só iria se o cachorro Bili fosse junto. "Tem hora que eu não sei o que fazer, eu não quero me separar do meu cachorro, já perdi vários cachorros. Ele é meu melhor amigo", diz.  

 



AMIGOS COMERCIANTES 
Comerciantes da região do Carmo, local onde ele vive, conseguiram a última internação para ele em uma comunidade terapêutica da cidade.  

"Ele ficou bem, aprendeu tudo, dá aula sobre dependência. O Igmar sabe muito o que fazer para ficar em sobriedade mas infelizmente não aplica em sua vida" conta Célia Biancardi, comerciante. Ela tenta convencê-lo para uma nova internação no momento. 

A última desintoxicação durou seis meses. Igmar estava trabalhando na comunidade terapêutica, porém teve um recaída assim que recebeu alta. Resultado: está há quatro meses morando nas ruas novamente.  

"Eu fui monitor em uma clínica de recuperação, sou palestrante também. Eu vou e volto da rua, vivo de altos e baixos. Ando muito confuso ultimamente, muito álcool na cabeça", concluiu enquanto tenta virar a página mais uma vez.


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