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O poder e a autoestima das tranças ancestrais

Trancista faz sucesso em Araraquara com penteados afros e leva oficinas às escolas

| ACidadeON/Araraquara

Bruna Ribeiro (no centro) e sua equipe do Wakanda in Aracoara (Foto: Amanda Rocha/ACidadeON)

Ela faz a cabeça de muitas manas e caras da comunidade negra de Araraquara. Bruna Ribeiro é trancista, chegou há quatro anos na cidade e já é bem requisitada. 

Muito além da estética estilosa do penteado, as tranças trazem histórias da ancestralidade africana e são sinônimos de força e empoderamento.  

"A trança na nossa cultura traz muita força em relação à aceitação do cabelo. A cultura africana valoriza demais o cabelo afro, o trançado. As tranças distinguem as tribos na África, situação financeira e até de relacionamento, se a mulher é solteira, casada. Já aqui é mais questão de empoderamento, de aceitação de nós mesmos", enfatiza Bruna. 

A trancista está no ramo há 16 anos e conta que é "incrível ver a transformação de mulheres" que chegam ao salão fazendo a transição capilar a partir das tranças.
Bruna reforça que os padrões de beleza da sociedade oprimem muitas mulheres negras, e a trança geralmente é o primeiro passo para aceitação e autoestima. 

"A energia muda, é poder, autoestima. Valorizamos muito isso porque sabemos o quanto que a gente sofre por questões estéticas impostas por esse sistema", expõe.  

LUTA E AMOR PRÓPRIO  
Bruna Ribeiro começou a fazer tranças quando tinha 15 anos por conta da não aceitação do cabelo natural. Hoje, ela e outras trancistas realizam o projeto voluntário "Deixe-me trançarte" - oficinas de cortes e penteados afros voltadas a crianças e educadores da rede de ensino pública do município.  

"Eu tinha muita vontade de fazer um projeto pra levar nas escolas e ajudar crianças a pararem de sofrer por conta da não aceitação do cabelo crespo e, com isso, combater o preconceito e o bullying. Então levamos o conhecimento dessa cultura africana para população, ensinamos técnicas práticas de trança e penteados simples para as crianças e adolescentes valorizarem seus cabelos e também reconstruir a autoestima de cada um", conta.  

Lá, elas ensinam tranças simples de se fazer e mostram aos educadores como trabalhar com cabelo crespo, desembaraçar, os tipos de creme, e as formas corretas de se pronunciar os cabelos.  

"Não se deve falar cabelo duro, cabelo ruim. É cabelo crespo, cabelo afro, e assim a gente consegue ensinar as crianças, desde pequenininhas, a se amarem como elas são realmente", diz.   

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TODO DIA É DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA
A musicista e arte educadora Jussara de Paula Justino, de 43 anos, frisa que embora a data seja um marco para os movimentos negros, é preciso falar sobre a negritude diariamente.  

"Africanidade e negritude não são temas, tem que estar na fala e consciência das pessoas todos os dias, não só no dia 20 de novembro, ou quando acontece alguma coisa, que ganha visibilidade. O racismo é cotidiano, negros são mortos a cada 23 minutos no país", aponta.  

Segundo dados do Atlas da Violência, de 2008 a 2018, os assassinatos de negros aumentaram 11,5% no país foram de 34 para 37,8 mortes, a cada 100 mil habitantes.
O Sistema de Informação sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde, em parceria com o Instituto de Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostra que 75,7% das pessoas que foram assassinadas, em 2018, eram negras. 

Jussara conta que ainda é observada e seguida por seguranças, mesmo frequentando quase todos os dias os mesmos supermercados. 

"O fato de eu ser uma mulher negra que já alcançou determinadas coisas, que faz doutorado e tem emprego, não me exime de sofrer o racismo que é institucional e estrutural", enfatiza.  

Para a educadora, por mais que a data seja de celebração, também é um dia de tristeza, pois ainda há equívocos e reprodução de estereótipos dentro da própria população negra. 

"Desde o presidente Fundação Cultural  Palmares (FCP)  até o vereador reeleito de São Paulo, Fernando Holiday, a gente vê que são mentes totalmente colonizadas e racistas, que não sabem da sua própria história, e assim ajudam a perpetuar o racismo cotidiano", reflete.  

A trancista Bruna Ribeiro diz que foi a partir das comemorações do dia Consciência Negra que passou a se entender como uma pessoa negra e a lutar por melhorias por sua comunidade. 

"A data é muito importante por conta de toda a luta dos nossos antepassados até os dias atuais, para sermos reconhecidos como seres humanos e não sermos diminuídos pela nossa cor", conta.   

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APROPRIAÇÃO CULTURAL
Sobre apropriação cultural dos penteados afros por pessoas brancas, a trancista lembra que, ao longo do tempo, a cultura negra foi estigmatizada, e as pessoas precisam ter consciência da história e do uso de vestimentas e cabelos afros.  

"Tudo que é relacionada à nossa cultura sempre foi estigmatizado como feio e ruim, até mesmo as tranças no cabelo de uma pessoa negra é vista como algo ruim. Por exemplo, as pessoas perguntam como lava, se cheira mal. Já com pessoas brancas não se vê esse tipo de comentário, enxergam aquilo como estilo, como moda, algo sofisticado", explica. 

Para ela, tanto penteados quanto vestimentas da cultura negra devem ser vistos de forma positiva no negro, antes de chegar a outras culturas que também estejam utilizando.  

"Não vejo problema nisso, enquanto que as pessoas brancas tenham consciência e entendam toda a história por trás dos penteados, vestimenta e turbantes", diz. 

WAKANDA É AQUI
Sua equipe é composta por quatro mulheres negras e por seu filho de 15 anos. Ricardo Ribeiro segue os passos, na real, "as mãos" da mãe. Desde criança demonstra habilidade e identificação com a profissão. 

"Sempre vi desde pequeno ela fazendo trança e penteados nas clientes, sempre estava em cima, querendo ajudar a separar mecha. Eu adoro fazer box braids (um tipo de trança). Pretendo continuar no ramo", conta. 

Penteados com histórias fantásticas e significados diversos estão "trançados" na cultura africana. Box braids e nagôs são as tranças mais procuradas e podem levar até 8 horas para ficarem prontas, dependendo do estilo.  

"Nagô significa caminho e elas parecem caminhos na nossa cabeça mesmo. São uma das tranças mais utilizadas nos tempos de escravidão para nossos irmãos negros fugirem das casas dos senhores de engenho e se refugiarem nos quilombos, para isso as mulheres trançavam mapas nas cabeças das crianças e até escondiam grãos de alimento pra poder cultivar quando fugiam dos engenhos", lembra. 



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