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Brechós do centro antigo movimentam gerações em Araraquara

O comércio de brechós de Araraquara movimenta o centro antigo da cidade há décadas

| ACidadeON/Araraquara -

 

Vera trabalha há 20 anos com roupas seminovas na Avenida São Paulo, centro de Araraquara (Foto: Amanda Rocha)

 

 

 

 

 A Avenida São Paulo, próximo ao Terminal Central de Integração, é um ponto comercial muito conhecido de produtos de segunda mão, no centro de Araraquara. Por ali, brechós e lojas de móveis usados são pontos clássicos do centro velho da cidade. 

Só de brechós, lojas que vendem roupas e sapatos seminovos, há cerca de 10 espalhados pela avenida e ao redor.
O fluxo de clientes comprando ou vendendo peças é constante. E as vendas sempre rendem para ambos os lados. Calças jeans, vestidos, ternos e saias são os itens mais procurados. 

Além de roupas, se encontra de quase tudo por lá: malas, bijuterias, panelas, bulês, pratos, um pequeno universo comercial de usados. 

A maioria das proprietárias são mulheres, como a comerciante Vera Moreira dos Santos , 64 anos, que está há 20 anos no mesmo local. 

"Eu já trabalhava em outro brechó, mas sempre tive vontade de ter o próprio negócio e um dia surgiu a oportunidade. Faz 20 anos que estou neste ponto na Avenida São Paulo. É a minha principal renda, abro de segunda a sábado", contou.
A comerciante disse que tem fregueses até de São Paulo. O público é eclético, há evangélicos, universitários, artistas de teatro, seguranças, um mix de estilos e de classes sociais. 

"Vem de tudo quanto é tipo de gente, de todas as classes sociais. Agora o que mais vendo é vestido, saia e terno para o público evangélico. Muitos seguranças também procuram terno" apontou. 

Um terno completo custa R$ 50 no Brechó da Vera. Mas há roupas de R$ 2 a R$ 20. 

Outra tendência são pessoas que garimpam roupas nos brechós para revender na internet. 

"Muita gente vem garimpar para vender na internet, elas sempre acham coisas diferentes. Já o pessoal do teatro procura roupa de época. O que aparecer na minha frente eu vendo, de roupa até eletrodomésticos" apontou.  

 

Comércio de seminovos no centro velho de Araraquara (Foto: Amanda Rocha)

 

 JÚLIA, A PIONEIRA DOS SEMINOVOS

Mas Vera começou no ramo através da dona Júlia, a mais antiga proprietária de brechó da cidade. São quase 35 anos dedicados ao comércio de roupas usadas no centro velho, na esquina da Avenida São Paulo com a Rua Gonçalves Dias (Rua 1). 

Hoje, aos 73 anos, ela está aposentada, mas continua de "home office", como disse o filho João Francisco Antônio Moreira, 41 anos. 

João é a segunda geração de comerciantes da família no ramo de seminovos. Ele cresceu vendo a mãe negociando roupas na região central de Araraquara. 

"Comecei com ela, fazíamos panfletagem nos carros nos estacionamentos da Fonte, na Facira. O panfleto era a nossa propaganda, não tinha internet. A gente morava aqui no centro e ia panfletando", lembrou. 

No começo, nem tudo foi tão fácil. João relembrou que ela enfrentou resistência de comerciantes e foi ganhando a confiança de todos. Júlia era modelo e veio de Brasília (DF) para Araraquara com o único filho.  

 

João aprendeu tudo o que sabe com a sua mãe dona Júlia, a pioneira dos brechós de Araraquara (Foto: Amanda Rocha)

 

  "Minha mãe era modelo, chegou a viajar internacionalmente, e antes ela vendia sapatos e tênis em Brasília. Mas aqui teve a ideia dos usados. No começo ela enfrentou resistência de comerciantes, mas no fim tudo deu certo", disse. 

João comentou que, como a mãe é muito ativa, ainda faz pequenos consertos de peças em casa, e aparece no brechó de vez em quando para matar a saudade. 

PEÇA RARA
A comerciante Geracina Antônia Ribeiro, a Gê, é uma peça rara. Agitada e comunicativa, a araraquarense de 65 anos assumiu um ponto de brechó na Avenida Brasil há 30 anos. 

Desde então, contou orgulhosa que criou um filho e que foi com a profissão que se aposentou. Ela também lembrou da importância de Júlia na sua caminhada.  

"A Júlia sempre me ajudou com tudo que precisava. Ela foi muito parceira, para todas as horas", contou. 

Para Gê, hoje muita coisa mudou, principalmente com a pandemia da covid-19, mas o comércio de seminovos continua firme e forte.  

Gê é uma das proprietárias mais antigas em atividade na cidade (Foto: Amanda Rocha)

"Hoje tudo é diferente, mas não posso reclamar, aqui me aposentei e criei meu filho. Eu fico aqui mais "isolada", pessoal fala que aqui é rua morta, mas não enxergo assim. Deus abriu as portas pra mim aqui e estou tranquila. Você pode ver que nessa pandemia muitas lojas fecharam, mas os brechós continuaram. Só tenho que agradecer ao Senhor", avaliou. 

CONSUMIDORES
Maria Cavalcanti, 40 anos, costuma ir a brechós desde os seus 20 anos. Ela sempre levava sua filha, que hoje também frequenta os locais. Gerações de clientes costumam comprar nos brechós. 

"Eu frequento há mais de 20 anos e minha filha também. Costumo comprar calças pro meu marido trabalhar, sempre acho coisa boa. Hoje, como não achei calça no número dele, estou levando pra mim", comentou.  

 

Cliente: Maria Cavalcanti frequente brechós há 20 anos (Foto: Amanda Rocha)

A comerciante Vera frisou que muitos dos seus clientes frequentavam a sua loja quando eram crianças. "Hoje são casados e trazem os filhos", disse. 

Mas um consenso entre todos é a presença do público evangélico. Quando uma roupa específica chega, como os ternos, eles ligam imediatamente para os clientes. 

"Meu público forte é mais o popular e o público evangélico. Esses dias chegaram calças número 46 e já liguei para meu cliente. Mas aqui aparece desde mulher de médico até população de classe baixa, além dos adolescentes", apontou João.
E uma dica para atrair novos e manter os clientes é sempre renovar os manequins e vitrines. 

"Tem que renovar as roupas sempre, porque tem gente que passa aqui todo dia, e sempre querem ver novidade. Às vezes mudo as coisas de lugar. Isso aprendi com minha mãe", concluiu João. 

João é a segunda geração de sua família que trabalha com brechó em Araraquara (Foto: Amanda Rocha)

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