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PCC iniciou em Araraquara a história do crime organizado pelo Brasil

Nascido em São Carlos, o co-fundador da facção Idemir "Sombra" Ambrósio começou com pequenos furtos e se tornou líder do bando

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Idemir Carlos Ambrósio, o "Sombra",  no pátio da Penitenciária de Araraquara, em 1994 (Acervo pessoal/JosmarJozino/Colaboração)


Quase todo mundo já ouviu falar sobre a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), responsável por ataques, mortes, megarrebeliões simultâneas e por comandar quase todos os presídios paulistas, além de controlar o tráfico de drogas em grande parte do País. O grupo foi fundado em 31 de agosto de 1993 na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, conhecida como “Piranhão” na época. No entanto, o que pouca gente sabe é que foi na Penitenciária de Araraquara que o “Partido” iniciou sua propagação, com os primeiros batismos externos. Foi na Morada do Sol que passou a distribuir o lema que depois se tornaria regra para bandidos de vários Estados da Federação e países vizinhos.

As informações estão no livro “Cobras e Lagartos”, da Via Leitura, uma obra do jornalista Josmar Jozino. Quis o destino que o ex-garçom (profissão que consta em sua ficha criminal, apesar do último local de trabalho ser uma fábrica de papelão) Idemir Carlos Ambrósio, o “Sombra”, nascido em São Carlos, viesse para Araraquara. O ACidadeON fez uma busca e encontrou registros de sua transferência no dia 6 de janeiro de 1994. Na antiga Penitenciária, dividida em quatro pavilhões com dois presos por cela, ele - tipo por alguns como liderança secundária - foi colocado no “fundão” e tornou-se uma espécie de apóstolo inicial, repassando as ideias da organização em outra casa penal.

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Foto antiga mostra o pátio do presídio de Araraquara


Ao longo das últimas duas semanas, o ACidadeON/Araraquara cruzou informações e dados sigilosos do Governo com entrevistas, depoimentos e publicações da época. Muitos policiais e até mesmo ex-detentos desconheciam essa relação entre o criminoso e a região. Sombra, também conhecido como Carlinhos ou Samba, era um conhecedor da região e acabou sendo o primeiro criminoso ligado à elite da facção a deixar o Piranhão. Em Araraquara, vinte dias depois de chegar à unidade, passou aqui seu aniversário de 34 anos. Ele ficou no presídio do Jardim Pinheiros até o dia 12 de agosto de 1994, quando voltou ao Piranhão para ficar mais um ano no castigo.

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Em Araraquara, agentes dizem que Sombra chegou como um reconhecido assaltante de bancos (acervo pessoal/JosmarJozino)

Quando retornou à região, Sombra tinha maior prestígio na organização que, segundo Jozino, nasceu após conversa dele com César Augusto Roriz Silva. “Césinha”, como Silva era conhecido, contava a respeito de um colega que teria surtado e comido fezes no pátio do presídio. O homem em questão era Mizael Aparecido da Silva, que no futuro se tornaria a pessoa responsável por redigir o Estatuto do PCC. A partir da conversa, os detentos resolveram agir contra o estilo de regime mais duro, que impedia visitas e maltratava os presos.

O jornalista Percival de Souza, no livro Sindicato do Crime, relembra essa passagem. “No passado, cada diretor de presídio fazia uma seleção dos presos considerados ‘piranhas’, categoria de condenados a longas penas e sem ânimo de recuperar a liberdade. Como no inferno de Dante, entraram na cadeia deixando lá fora toda a esperança”, diz Percival. Em São Paulo, na época, essa concentração acontecia na Casa de Custódia em Taubaté. Nascia, então, o “apelido”. Foi nesse mesmo espaço que, após de um jogo de futebol, nasceu a facção.

Tanto Josmar Jozino quanto Percival de Souza lembram que Sombra, em raio separado, não participou do ato simbólico da fundação do PCC, mas foi incorporado ao Partido logo em seguida, sempre com status de fundador - mesmo tratamento recebido por Marco Willian Herbas Camacho, o Marcola. De acordo com Percival de Souza, aqueles que ficaram trancados seriam justamente, no futuro, os chefões da organização: Marcola e Sombra.

‘Trio Parada Dura’

O ACidadeON conversou com uma série de policiais aposentados para recriar a história de Sombra. Alguns lembram-se dele como um ladrão "pé-de-chinelo", autor de pequenos furtos no Jardim Bandeirantes, em São Carlos. Lá, ingressou no crime ainda jovem. O apelido surgiu ainda naquela época. Entrava e saia na surdina, sem ser visto, na sombra. Ainda novo, dizem que Idemir teria se casado e tido uma filha. O relacionamento não deu certo e ele nunca chegou a participar da criação da menina, a quem viu algumas vezes. Tornou-se avô, mas também nunca esteve com o neto.

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Em agosto de 1985, 'Sombra' e o comparsa roubavam um casal de estudantes em São Carlos (Claudio Dias/Reprodução)


Aos 19 anos, Sombra já respondia um inquérito policial, instaurado em 17 de abril de 1979, por lesão corporal. Aluno aplicado da “escola do crime”, quatro meses depois do inquérito em questão, acabou preso em seu primeiro roubo. O tenente-coronel da reserva, Samir Gardini conta lembrar bem da presença de Sombra em São Carlos. “Ele morava perto da Rodoviária e começou invadindo quintais. Até era levado à delegacia, mas quase sempre acabava solto”. Ao longo do tempo, o criminoso foi processado 61 vezes, sendo considerado culpado em mais da metade dos casos.

Em 1984, Sombra foi levado à cadeia pública de São Carlos, mas fugiu em janeiro de 1985. Foi para São Paulo e lá, segundo a obra de Jozino, conheceu em um bar a mulher que se tornaria sua esposa. Na época, com 25 anos, Sombra era quatro anos mais velho do que o jovem aspirante oficial da PM, Otacílio Souza. Hoje, coronel da reserva, Souza tem vívidas recordações do bandido que aterrorizava São Carlos no início de sua carreira na corporação. “Ele já era um ladrão que nos incomodava. Quem diria que se tornaria um bandido perigoso”, ressalta o coronel.

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Em São Carlos, 'Sombra' agia no bando conhecido como 'Trio Parada Dura' (Claudio Dias/Reprodução)

Mesmo sendo um procurado da Justiça, Sombra agia em São Carlos com outros dois comparsas: “Meningite” e “Urso”. Juntos, formavam o que a polícia classificava como “Trio Parada Dura”. Na Fundação Pró-Memória de São Carlos, que mantém arquivos de publicações antigas do município, o ACidadeON encontrou citações sobre o grupo em reportagens policiais. Em uma delas, o jornal “A Folha”, de 5 de agosto de 1987, conta que o trio invadiu a casa de um comerciante levando joias, aparelhos eletrônicos e um carro. Uma das vítimas passou mal e foi parar no hospital.

‘Sombra’ e os parceiros fugiram antes da chegada da polícia. Em outra citação, desta vez feita pelo Jornal “O Diário” em 17 de dezembro de 1985, o homem que viria a ser um dos líderes da maior facção criminosa do País e um dos comparsas renderam, com uma arma de fogo, um casal de namorados. As vítimas, que eram estudante da USP, foram obrigadas a entregar um relógio. Os criminosos pensaram em trancar o casal no porta-malas, mas desistiram depois que a jovem gritou por socorro. No fim, os criminosos contentaram-se em levar o carro.

A prisão chegou

Ninguém sabe dizer quando o “Trio Parada Dura” se separou. Sombra e Meningite seguiram carreira no crime, deixando as casas e comércios de São Carlos e partindo para os bancos em todo o interior de São Paulo. Sozinho, Sombra respondeu por mais de nove assaltos a agências em cidades como Araras, Leme, Ribeirão Preto, Piracicaba e Sorocaba. Juntos, os comparsas no crime foram condenados a mais de 200 anos de prisão. Em agosto de 1986, Sombra foi recapturado e fugiu. Isso ocorreu outras duas vezes.

Em fuga, escondido no Paraná com a mulher, Sombra – procurado e na mira dos policiais de São Carlos - já não voltava para casa, mas nem por isso deixava de assaltar bancos, modalidade em que era um especialista. Em 1989, tentou assaltar um banco em São Paulo, mas o plano deu errado. Nada foi levado e um vigia morreu na ação. Meses depois, o bando de Sombra se redimiu e varreu os caixas do extinto Banco Nacional. Em abril de 1990, o bandido foi preso, em São Paulo. Na ocasião, ele teria tentado subornar policiais, o que não deu certo.

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Preso passou por Araraquara no período em que a Penitenciária ainda nem tinha grades nas janelas


Batismos e consolidação no PCC

Sombra rodou os presídios paulistas até parar no Piranhão, em novembro de 1992. Um ano depois, em 1993, nascia o PCC. Para Josmar Jozino, o fato de ser uma espécie de co-fundador da facção lhe conferia o direito de reunir novos “soldados” e dizer quem era ou não um “irmão”. “A história mostra que em Araraquara começava a plantar essa semente da organização criminosa”, lembra Jozino.

Agentes que atuavam no presídio, em 1994, quando Sombra esteve aqui, se recordam de sua presença no raio quatro. “Era, até então, apenas um respeitado ladrão de bancos”, recordou um agente.

Para o procurador de Justiça Márcio Sérgio Christino, que estuda e investiga o PCC desde o seu início, Sombra teve participação importante no início da facção. A Penitenciária de Araraquara, por ser uma unidade já estruturada e de segurança reforçada na época, acabou virando uma espécie de reduto do grupo. Ao longo dos anos, outros membros importantes passaram pela cidade. “Ele era muito comunicativo e convencia as pessoas”, lembra Christino, que ainda se surpreende com a organização interna do PCC.

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Juiz aposentado Nagashi Furukawa quando era secretário da administração penitenciária (Divulgação)

O governador Geraldo Alckmin, que esteve na região recentemente, evitou falar sobre o tema. Nagashi Furukawa, secretário da administração penitenciária entre 1999 e 2006, chegou a conversar com ‘Sombra’ na prisão. Para ele, Araraquara teve grande importância na contenção das lideranças do PCC, assim como as cidades de Avaré, Taubaté e outros municípios com presídios considerados seguros. Ele preferiu não comentar sobre a facção.

Furukawa, no entanto, lembra que no passado a ideia era de isolar as lideranças para evitar a comunicação externa. A tática não funcionou, e a curva histórica mostra isso. Em fevereiro de 2001, ao ser transferido da Casa de Detenção do Carandiru por matar outros presos e comemorar com churrasco e cerveja, o ex-garçom de São Carlos avisou na saída que os motins seriam iniciados. Na mesma semana, ele comandou rebeliões simultâneas em 29 presídios paulistas. Na época, 19 presos morreram. Sombra ganhava o status de líder da organização.

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Raio quatro foi o mesmo em que 'Sombra' ficou na Penitenciária e começou a repassar o lema da facção

Morte

Em 27 de julho de 2001, depois de provocar as rebeliões e mortes, Sombra voltou para o “castigo” no presídio de Taubaté. Aos 41 anos, o preso, que também era chamado de “pai” por alguns dos sentenciados, não recebeu qualquer misericórdia. Foi morto ao ser espancado e estrangulado com um cadarço de sapato. Três presos assumiram a autoria e justificaram como sendo apenas uma desavença. A versão extraoficial é que se tratava de uma disputa de poder na facção.

Em depoimentos informais, o procurador Márcio Sérgio Christino comentou que os presos admitiram ter recebido a ordem de outros fundadores do PCC. A morte de Sombra chegou a ser discutida na Assembleia Legislativa de São Paulo, mas a motivação real nunca foi documentada. Sombra, o primeiro dos líderes do Partido a ser assassinado, foi velado com uma bandeira da facção no caixão e enterrado em São Paulo muito antes de cumprir a pena de 218 anos, quatro meses e 18 dias de reclusão.

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