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Exclusivo: 'Hacker de Araraquara' confirma ideia de venda ao PT e diz ter 10 cópias de conteúdo com amigos de confiança

ACidadeON teve acesso a parte do material exposto pelo hacker que inclui artistas, esportistas e políticos

| ACidadeON/Araraquara

Atualizada às 23h50, de sexta-feira, dia 26 de julho 
 
A investigação da Polícia Federal (PF) relacionada a Operação Spoofing não deu um tiro no pé como muito se imaginava depois da prisão de quatro pessoas de Araraquara, nesta terça-feira, dia 23, em mandados de busca e apreensão cumpridos em Araraquara, Ribeirão Preto e São Paulo. Ao longo desses quatro dias, foi traçado um perfil de cada um dos suspeitos e tudo recaia para um mesmo nome: Walter Delgatti Neto, o Vermelho, apontado como o hacker, a cabeça pensante em toda a organização criminosa. E, apesar dos números surreais de quase seis mil ligações e mais de mil vítimas, acreditem: a PF estava certa. 'Vermelho', é o hacker. [veja a atualização sobre a ideia de vender os documentos ao PT e os arquivos escondidos abaixo].

Nesta sexta-feira, dia 26, o G1 publicou o primeiro depoimento dado por 'Vermelho' aos agentes federais na terça-feira, dia 23. Ali, ele dá detalhes de chegou aos alvos e principalmente o caminho para ter acesso aos contatos, mensagens e arquivos pessoais das maiores autoridades do País [veja mais abaixo]. Em meio a esse amontoado de informações, o ACidadeON/Araraquara [que deu a primeira notícia envolvendo o teor da operação] obteve agora, com exclusividade, uma conversa de 'Vermelho' com uma pessoa da cidade, que pediu para ter o nome preservado, no dia 15 de junho deste ano. Ali, ele falava da fraude, expunha as vítimas e tirava sarro se gabando da própria inteligência e capacidade de driblar o sistema. O nome de 'Vermelho', que era, 'Vermei', foi alterado na agenda da fonte para 'Estados Unidos' porque a conversa era no chip americano dele.

Vermelho começa a conversa com a pessoa de Araraquara já ironizando Moro (ACidadeON/Araraquara)

Naquele mês, o ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro, atendeu a uma ligação de um número igual ao dele tocando no seu celular. Isso permitiu o acesso ilegal ao aplicativo Telegram, que ele não usava mais. Ele desativou a linha, mas era tarde. Do outro lado era Vermelho. Ainda em junho, o site The Intercept Brasil afirmou ter recebido um pacote de mensagens atribuídas justamente ao ministro que foi o responsável por várias condenações judiciais quando ainda era juiz federal durante a Operação Lava-Jato. 
Desde 9 de junho, o site passou a divulgar as conversas privadas no Telegram apontando uma colaboração entre o então juiz e o procurador responsável pela Força Tarefa, Deltan Dallagnol, ainda em Curitiba. Iniciava, ali, a busca da PF por quem teria vazado com as informações. Com a prisão de Vermelho, tudo ficou mais claro. O que imaginava ser uma grande conspiração acabou-se por revelar uma falha tecnológica. No material em que o ACidadeON/Araraquara teve acesso, o hacker de Araraquara chama uma pessoa, no dia 15 de junho, às 22h14. Manda uma boa noite e uma figurinha de Moro aparentemente chorando.  

Sequencia da conversa de 'Vermelho' e pessoa de Araraquara (ACidadeON/Araraquara)
Já na madrugada do dia 16, 'Vermelho' e essa pessoa de Araraquara começam a conversar inicialmente em um papo informal. O interlocutor pergunta como ele está e se está fora do Brasil [haja vista que Vermelho costumava viajar aos Estados Unidos e mandava imagens com dólares aos colegas em fotos via aplicativos]. Esse colega chega a perguntar que se estivesse fora, qual seria o valor de um relógio para trazer ao País. Às 2h07, do dia 16, Vermelho passa a entregar as informações pedindo para salvar as fotos e dá uma risada.  

Walter Delgati Neto, o Vermelho, mostrava o dinheiro em uma conversa com amigo
Do nada, de uma só vez, ele envia quatro figurinhas de Moro, duas do jornalista Glenn Greenwald, do site Intercept Brasil e três de Deltan Dallagnol, seguida de uma risada. Em seguida, outros arquivos [que precisam ser devidamente apurados, mas alguns deles com tarjas de confidencial que aparentemente parecem ter sido obtidos ilegalmente em conversas de representantes do Ministério Público Federal]. Ao ACidadeON/Araraquara, a fonte disse que tinha visto na imprensa os vazamentos das conversas entre Moro e Dallagnol, mas como 'Vermelho' tinha a fama de sempre contar vantagem deu corda na conversa achando ser uma brincadeira.  

'Vermelho' envia as figurinhas dando a entender do assunto ACidadeON/Araraquara)

Na troca de conversas naqueles poucos minutos da madrugada do dia 16 de junho, 'Vermelho' envia uma série imagens aparentemente captadas do próprio computador. A pessoa de Araraquara, então, comenta de alguns nomes e Vermelho diz ter dados [fotos, mensagens e arquivos] de alguns. Fala também sobre o vazamento das mensagens postadas pelo Intercept Brasil, mas não deixa explícito que fora ele [apesar do indicativo no início da conversa com as figurinhas dos três personagens: Moro, Glenn e Dallagnol]. (veja mais abaixo como 'Vermelho' acessou todas as contas e criou essa confusão toda).  

Walter Delgatti Neto, o 'Vermelho', que antes de ser preso esta semana pela PF estava sendo procurado pela Justiça paulista por duas condenações [estelionato e falsificação de documentos], durante o papo, se gaba por ter acesso a tantas informações e diz que está mais estudado. Ele cursou apenas o primeiro ano do curso de Direito [quando foi aluno, fez Boletim de Ocorrência contra os colegas que o chamaram de hacker]. No papo, afirma estar bem por dentro da legislação. 

'Vermelho' envia as figurinhas dando a entender do assunto ACidadeON/Araraquara)
Já era 3h08 da madrugada do dia 16 de junho, quando a pessoa de Araraquara, já desconfiada que Vermelho estava indo longe demais nos argumentos e documentos [ele mostra uma imagem que seria de contatos extraídos do Telegram], resolve perguntar diretamente sobre o ministro Sérgio Moro. E sugere: "Faz um vídeo dos contatos dele devagar. Contatos do Moro tem", diz, sem o ponto de interrogação. Ele confirma. 

No material obtido pela reportagem, eles ainda falam sobre vários outros casos e pessoas [o que precisa ser apurado ainda pelo ACidadeON/Araraquara. Na conversa, 'Vermelho', que, até então, era conhecido apenas por ser um estelionatária condenado e ligado a fraudes eletrônicas, ironiza e diz ter contatos e imagens de políticos, artistas, esportistas e pessoas conhecidas no cenário nacional, internacional, além de gente da própria cidade natal: Araraquara. Um deles ironiza uma foto intima e brinca com o pênis do artista, por exemplo. 
O ACidadeON/Araraquara, já havia adiantado que Vermelho caminhava para ser o verdadeiro hacker desta história toda [apesar de a PF ainda estar colhendo os depoimentos]. O que ele contou na terça-feira é surreal, mas na fala de hoje o também ritmo teria sido alucinante. E, ao contrário do que se imaginava, ao menos nos indicativos da conversa e dos depoimentos prestados por ele até o momento, apesar da ideia de obter algum interesse financeiro, as invasões em sua maioria se tornaram tão simples que viraram diversão.   

Além do ministro Sérgio Moro, que gerou o estopim da investigação, que ainda na fase inicial aparecia um desembargador, um juiz federal e dois delegados, os alvos eram muito maiores. Já foi confirmada a invasão do Telegram do presidente Jair Bolsonaro, e de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Também foram vasculhadas as conversas dos presidentes da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ); do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP); do Superior Tribunal de Justiça, ministro João Otávio de Noronha; e da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, além dos primeiros citados na investigação. 
Venda ao PT?     

Bate-papo parte para a proposta de venda das mensagens
Durante a conversa, Vermelho não consegue articular um assunto por vez e vai emendando um tema em cima do outro de maneira desorganizada. Às 2h22, diz ter encontrado o contato de um político. Sem sequencia, o interlocutor manda um vídeo da deputada estadual Márcia Lia, do PT, que é de Araraquara dela fazendo uma série de críticas em sessão na Assembleia Legislativa. Um minuto depois, Vermelho faz uma proposta: buscar negociar a venda do conteúdo relacionado aos procuradores da Lava-Jato para o Partido dos Trabalhadores.
 
Papo segue sobre a proposta de venda...
Esta proposta, inclusive, segundo Gustavo, o DJ, Vermelho teria comentado sobre essa tentativa de venda ainda antes da Operação. No conteúdo em que o ACidadeON/Araraquara teve acesso, ele diz o nome da fonte e emenda: "A gente lucra. E ganha moral ainda", diz Vermelho dizendo qual o grau hierárquico dentro de um partido político a pessoa poderia chegar caso a repercussão fosse positiva [a questão é que o colega do hacker ouvido pelo ACidadeON/Araraquara não é político profissional].
 
O interlocutor teria dito que tentaria o contato com alguém influente, entre outros assuntos desconexos. Em seguida, Vermelho manda um áudio: "Agora é a hora certa porque se a gente fala mês passado, o pessoal fala: ah, tá mentindo, não tem! Agora que explodiu na mídia, ai é fácil". E dá o recado: "Vou deixar na sua mão. Já queria falar com você antes, mas ninguém ia acreditar", diz Walter Delgatti Neto, o 'Vermelho', citando que após a divulgação das conversas entre Moro e Dallagnol ficará mais difícil negociar o conteúdo.
 
Vermelho sobre fala de um comentário feito pelo presidente
Ele posta uma reportagem da revista Veja, ironiza a fala do presidente Jair Bolsonaro de que 100% de confiança só em pai e mãe [declaração foi dada exatamente no dia 15 de junho, depois de novos vazamentos de conversas de Moro, quando juiz da Lava Jato em Curitiba] e fala em tom mix de lamentação e risos: "Agora que explodiu, ninguém vai comprar" [já preso, esta semana, Vermelho admitiu que cedeu, de graça, o conteúdo ao Intercept].  

Vermelho diz que tem cópias do material distribuída com amigos
Mas, na conversa com a pessoa de Araraquara, ele dá uma informação que ainda não apareceu nos depoimentos. "Tem 10 cópias já ahahahaha. Em tudo. Com amigo de confiança."

O Perfil

 Pelo perfil de Vermelho e com base nos depoimentos prestados, as versões começam a fazer mais sentido, ao menos, até o momento. Vermelho e o empresário e ex-DJ, Gustavo Henrique Elias Santos, o Guto Dubra, 28, teriam discutido porque Vermelho invadiu o aparelho do colega e tirou um sarro. Apesar de terem sido próximos no passado [Vermelho chegou a ser preso em Santa Catarina ao lado de Gustavo e Suelen Priscila de Oliveira], o relacionamento entre os dois não era mais o mesmo. 


Ao contrário de Danilo Cristiano Marques, amigo de infância de Vermelho e que pode ter sido preso simplesmente porque era o locatário do apartamento em que o hacker vivia em Ribeirão Preto. A Justiça autorizou a prorrogação da prisão dos quatro de Araraquara mais cinco dias. O advogado de defesa do casal, Ariovaldo Moreira, já tinha adiantando que as provas contra 'Vermelho' eram robustas o que deve isentar os outros três. 

Na conversa, ele se gaba de ser inteligente (ACidadeON/Araraquara)
Depoimento

Em seu depoimento à PF, no dia 23, ou seja, quando foi preso, Vermelho deu detalhes importantes, conforme a informação trazida nesta sexta-feira pelo Portal G1. Ele contou que, em março deste ano, fez uma ligação para o seu próprio número e percebeu que teve acesso ao correio de voz. Como sempre utilizou os serviços de VOIP (voz sobre IP), pesquisou e contratou a empresa que julgou ter o melhor preço. Ligou para o médico fazendo um teste e descobriu que poderia conseguir os códigos do Telegram e acessar as mensagens.
 
Entenda o histórico do caso, o dia da prisão e perfil dos presos clicando aqui 

O teste prático, ou seja, a primeira vítima foi mesmo o promotor de Justiça, Marcel Zanin, de Araraquara, que o denunciou em um processo de tráfico de drogas [porque ele mantinha medicamentos como Alprazolam e Clonazepam que são proibidos, mas ele toma regularmente, e falsificação de documentos]. Disse ter encontrado material contra o promotor e não publicou o conteúdo "tendo em vista que morava em uma cidade pequena e era conhecido por ter conhecimento avançados em informática."  
 
Em nota, o Ministério Público de São Paulo informa que "já requisitou o compartilhamento de provas à Polícia Federal no caso da invasão criminosa à comunicação privada de que foi vítima o promotor de Justiça Marcel Zanin Bombardi, a fim de tomar as medidas legais cabíveis. Informa ainda que o promotor havia oferecido denúncia contra Walter Delgatti Neto por tráfico de drogas e falsificação de documento, no mais estrito cumprimento de seu dever funcional." 

Pela agenda do promotor teve acesso ao número de um procurador de república, que não recorda o nome, mas que participava de um grupo "Valoriza MPF". Ali, encontrou vários contatos, entre eles, do deputado federal Kim Kataguri. Pelo Telegram de Kim obteve o número do ministro do STF, Alexandre Moraes. De Moraes, achou o contato de Rodrigo Janot obtendo, então, os telefones de membros da Força Tarefa da Lava-Jato, ou seja, de Deltan Dallagnol, Orlando Martello Junior e Januário Paludo.  

Walter Delgatti, o Vermelho, ao chegar na PF, em Brasília. (Mateus Bonomi/Folhapress)
À PF, Vermelho informou que todos os contatos ocorreram entre março e maio deste ano e só armazenou o conteúdo das contas de Telegram dos membros da Lava-Jato do Paraná, pois teria constatado atos ilícitos nas conversas registradas [tanto que, posteriormente, reativou seu Twitter e passou a fazer campanha sobre o tema. Chegou até a dar uma dica dizendo que os arquivos ficavam armazenados no cache]. Pela agenda de Dallagnol, teve conhecimento do número de Moro, gerando a partir dali outra lista de pessoas.

Ainda no depoimento vazado pelo G1, Vermelho confirmou ter procurado Glenn, no dia das mães para enviar o conteúdo das contas do Telegram dos procuradores. Resolveu procurar o jornalista por saber de sua atuação nas reportagens relacionadas ao vazamento de informações do governo dos EUA, conhecido como o caso Snowden [acusado de espionagem].  

No Twitter, 'Vermelho' deu uma dica sobre as mensagens vazadas; uma pista que pode ter levado a polícia até ele (Reprodução)
Disse, ainda, ter conseguido o telefone de Glenn através da ex-deputada federal e ex-candidata a vice-presidente Manuela D'Ávila (PCdoB-RS) [o que ela confirmou em sua rede social], e que pegou o número dela a partir da ex-presidente Dilma Roussef [que conseguiu por meio do telefone do ex-governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão]. Na prática, ele mesmo ligou para Manoela e falou sobre o conteúdo e pediu o contato do jornalista. Pouco depois, ele e Glenn estavam conversando sobre o assunto. Como o material era volumoso, criou uma conta em nuvem para que os arquivos fossem baixados.
 
Em nota enviada à imprensa na quarta-feira à noite, antes das informações sobre o vazamento, o Intercept Brasil disse que, assim como a melhor imprensa mundial, não comenta assuntos relacionados à identidade de suas fontes anônimas. Afirmou também que a operação deflagrada pela Polícia Federal "não muda o fato de que a Constituição Federal garante o direito do Intercept de publicar suas reportagens e manter o sigilo da fonte, mesmo direito garantido para toda a imprensa brasileira".  
 
Bloqueio  
 
Ainda nesta sexta-feira, o juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal de Brasília, determinou o bloqueio de ativos que os investigados pela Operação Spoofing tiverem em carteiras de criptomoedas. Além disso, informou sobre a necessidade de obter senhas e chaves das carteiras de criptomoedas do casal Gustavo Henrique e Suelen Priscila [o casal do Jardim Roberto Selmi Dei, em Araraquara, disse que os quase R$ 100 mil apreendidos em seu apartamento, em São Paulo, eram provenientes de negociações financeiros deste modelo]. Então, a PF quer entender se é verdade tudo isso.
 


 
 


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