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Política

A eleição da experiência

Cientista político faz análise sobre nova mesa diretora da Câmara de Araraquara, eleita nesta terça-feira (04)

| ACidadeON/Araraquara

Por Bruno Silva* 

A eleição para a Mesa Diretora da Câmara Municipal de Araraquara que conduzirá os trabalhos no biênio 2019-2020 ocorreu ontem sem grandes emoções. Aliás, para os que acompanharam a sessão, foi pura monotonia e mera publicização de um resultado já definido nos bastidores. Sem discursos prévios dos postulantes, sagraram-se vencedores os parlamentares: Tenente Santana (MDB), Édio Lopes (PT), Lucas Grecco (PSB) e Cabo Magal Verri (MDB). É como digo por aí, no cafezinho as decisões são tomadas. Não no Plenário! A votação por questões regimentais, no mínimo, esquisitas foi feita cargo a cargo na seguinte sequência: presidente, vice-presidente, 1º secretário e 2º secretário (mesma ordem dos vencedores enunciados anteriormente), sendo que cada vereador manifestou sua preferência numa cédula de papel, a qual não era secreta. Isso porque no momento da apuração o atual presidente, farmacêutico Jéferson Yashuda (PSDB), falou o nome de cada vereador e o seu respectivo voto.   

Galeria de presidentes da Câmara de Araraquara. (Foto: Amanda Rocha/ACidadeON)

O analista afiado logo pensa: o constrangimento é grande em um grupo tão pequeno (18 vereadores) se algum descumprisse com o combinado anteriormente no café. A "punição" seria automática. Ainda assim, o novo vice-presidente, vereador Édio Lopes (PT), aproveitou sua fala para comentar um pouco a respeito da sua fidelidade a correligionários. Não é para menos. Dois de seus colegas petistas, vereadores Toninho do Mel e Paulo Landim direcionaram o voto de vice-presidente para o seu opositor, Zé Macaco (PPS). Talvez este tenha sido o clímax da sessão, o resto foi o tradicional blá, blá, blá. Mas há aspectos interessantes a explorarmos sobre as eleições da Mesa, sobretudo quanto a disputa pela presidência.  

De antemão é preciso levar em conta que o Legislativo Municipal é importante espaço de socialização das elites políticas, uma porta da entrada na política institucional. Para muitos, o Legislativo é o espaço do protagonismo inicial e para a sedimentação de ambições futuras, sendo a presidência da Câmara o cargo de maior visibilidade para um vereador. Para ilustrar o argumento, considerando os últimos dez anos de eleições para a presidência do Legislativo, temos três vereadores que ocuparam o posto e tentaram alçar voo ao Executivo municipal. A ex-vereadora Edna Martins realizou mandato tampão no biênio 2007-2008 em virtude do falecimento do articulador político do prefeito Edinho Silva em seu segundo governo, Carlos Alberto Manço. Em 2008 foi candidata à prefeita pelo PT e saiu derrotada por Marcelo Barbieri. Em 2016, já no PSDB, por ironia do destino perdeu para Edinho Silva, o qual retornava para a disputa local após um período no governo federal como Secretário de Comunicação de Dilma Rousseff. Outros ex-vereadores, Aluízio Braz (Boi) e João Farias, haviam sido presidentes, respectivamente, nos biênios 2011-2012 e 2013-2014. Ambos saíram candidatos a prefeito e, embora derrotados no pleito, nenhum está fora da política. Edna, Boi e João Farias ocupam cargos de indicação dos seus partidos até hoje. Ganharam projeção local e, alguns, estadual.   


Já a eleição para a presidência ocorrida ontem trouxe à tona a disputa da experiência parlamentar. De um lado, apoiado nos bastidores pelo governo Edinho, estava o vereador Tenente Santana (MDB), o qual se encontra em seu terceiro mandato (2008, 2012 e 2016) além de ter experimentado em dois momentos diferentes cargos no Executivo como coordenador de Trânsito e alguns meses como Secretário de Segurança Pública no ex-governo Marcelo Barbieri. Do outro lado, ligado hoje ao principal partido opositor do PT local, o PSDB, estava o vereador José Carlos Porsani, carreirista no Legislativo local porque já se encontra em seu sétimo mandato consecutivo (1988, 1992, 1996, 2004, 2008, 2012 e 2016), além de acumular duas vezes o cargo de Secretário de Assistência Social (governos Waldemar De Santi e Marcelo Barbieri). Com folga, Tenente Santana venceu a disputa por 12 votos a 6, confirmando o que apontava os bastidores.   

Câmara Municipal de Araraquara

Levando em conta o discurso do novo presidente, o futuro mandato será marcado pela valorização do Legislativo e da aproximação do mesmo à população araraquarense. Esse mote deve realmente sair das palavras e se tornar real. Afinal de contas, no momento da realização da votação a transmissão da sessão não atingia 15 pessoas acompanhando. Nesse sentido, o início da aproximação do Legislativo deve ser baseado em: expandir a educação política para os cidadãos, com especial foco no papel da Câmara, nas funções do vereador e suas reais possibilidades de atuação política; tornar menos enfadonho os ritos legislativos, os quais afastam o cidadão comum do acompanhamento dos trabalhos da Câmara e; colaborar para a qualificação dos parlamentares e manutenção dos esforços de profissionalização do Legislativo. Medidas inovadoras requerem capacidade de liderança além de experiência, e o parlamentar preenche tais requisitos (ao menos considerando a sua própria fala). Então, a conferir.  

* Bruno Silva é doutorando em Ciência Política (UNICAMP), cientista político, diretor do Movimento Voto Consciente, comentarista e colunista de política da rádio CBN/Araraquara. Contato: b.silvaunicamp@gmail.com.


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