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Cidades do interior têm UTIs lotadas e pressionam capitais

| FOLHAPRESS

RECIFE, PE, SALVADOR, BA, E MANAUS, AM (FOLHAPRESS) - Além da concentração de casos do novo coronavírus nas capitais, o Brasil já vive outro cenário preocupante: cidades de interior estão em colapso ou com alta ocupação de leitos de terapia intensiva para tratamento da Covid-19.Municípios da Bahia, Ceará, Maranhão, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Amazonas e Pará enfrentam dificuldades para conseguir absorver a crescente demanda de pacientes graves, pressionando o sistema de saúde das capitais e regiões metropolitanas.Na Bahia e no Rio Grande do Norte, há cidades com 100% de ocupação, enquanto ainda há vagas nas capitais. No Amazonas, pacientes do interior têm a capital Manaus como única opção de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva).Em Pernambuco, com o sistema de saúde em estágio de colapso, o interior já registrou mais de cem óbitos em decorrência do novo coronavírus.Nesta quinta-feira (14), de um total de 249 pacientes, 48 aguardavam na fila por uma vaga de UTI em unidades de pronto atendimento e emergências de hospitais localizados no agreste, zona da mata e sertão do estado.Há casos em que doentes esperam há mais de uma semana. No Hospital João Murilo, em Vitória de Santo Antão, zona da mata de Pernambuco, cinco pacientes aguardavam a transferência para uma UTI nesta quinta. Em um dos casos, a espera ocorria desde o dia 6 de maio.Neste mesmo hospital, a enfermeira Williane Lins dos Santos, 30, morreu no dia 17 de abril, antes de conseguir acessar um leito de UTI no Recife. A confirmação para Covid-19 só veio quatro dias depois.A fisioterapeuta Maria Soares, 49, mãe de Williane, diz que a filha morreu porque não conseguiram transferi-la. "Às 8h30, fui informada de que já tinham solicitado vaga na UTI. Bateu 16h e nada. Eu sem ter contato com minha filha e sem conseguir vê-la", diz.Conta que só às 22h recebeu a informação de que haviam conseguido uma vaga de UTI para ela na capital. "Ela morreu às 23h45 no mesmo lugar. Minha filha tinha 30 anos e tudo para ser salva. Morreu por falta de atendimento".A Secretaria de Saúde do estado alega que o leito foi disponibilizado no mesmo dia, mas que a paciente teve piora súbita antes da transferência.Neison Freire, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco que atua no mapeamento da doença em Pernambuco, avalia que a pressão nas capitais é crescente."Nos locais de maior vulnerabilidade social, onde mais se precisa de leitos do SUS, muitas vezes há um desequilíbrio. Sem opção local, só resta uma alternativa: transportar o doente para a capital", explica.No Amazonas, cujo território equivale à soma das regiões Sul e Sudeste, a maioria das cidades só é acessível por meio fluvial ou aéreo.O gargalo deve aumentar nas próximas semanas, já que a Covid-19 se espalhou rapidamente pelo estado e chegou a 59 dos 62 municípios.Para atender a essa demanda, o governo do Amazonas dispõe de apenas seis UTIs aéreas, cada uma capaz de fazer uma viagem por dia, ou seja, seis transferências. Por terra, são seis ambulâncias, das quais quatro apenas para pacientes com a Covid-19. Pontualmente, prefeituras pagam pela remoção.No Pará, cidades como Santarém, Altamira e Parauapebas enfrentam problemas.Em Santarém (a 700 km em linha reta de Belém), com 1,2 milhão de habitantes, os 27 leitos de UTI do Hospital Regional do Baixo Amazonas e os 8 de UTI do hospital municipal estão lotados."Temos 22 pacientes esperando vaga e não estou conseguindo transferência para Belém", diz Marcela Tolentino Matos, diretora do 9º Centro Regional de Saúde da Secretaria de Estado de Saúde Pública. "Nunca vivenciei isso nos meus 25 anos de enfermeira."Com a epidemia, o centro regional de Santarém passou a atender mais nove municípios, mas a equipe está desfalcada: 40 dos 383 funcionários contraíram Covid-19.A atenção aos pacientes ganhou o reforço de 63 máscaras de saúde adaptadas para o tratamento respiratório e que reduzem a dependência de respiradores. O equipamento foi doado por um projeto das ONGs Motirõ, Expedicionários da Saúde e Projeto Saúde e Alegria.Em Altamira (a 820 km de Belém), um grupo de 68 médicos da região divulgou carta advertindo para a deficiência de UTI, profissionais de saúde e de equipes de higienização.A cidade é o polo médico de uma região com 400 mil habitantes, mas que dispõe de apenas 14 leitos, dos quais 5 eram da ala infantil e foram adaptados. Nesta sexta-feira (15), 11 estavam ocupados.Em Parauapebas (a 709 km da capital), oito dos dez leitos de UTI estão com pacientes da Covid-19. Para ampliar a oferta, o antigo hospital municipal foi reformado em parceria com a mineradora Vale para abrigar 40 leitos semi-UTI que estão em fase de montagem.No Rio Grande do Norte, a segunda maior cidade do estado, Mossoró, tem 26 dos 35 leitos de UTI com pacientes, uma ocupação de 74%.Entre os dias 18 de março e 7 de maio, foram registradas 206 hospitalizações em Mossoró, sendo 66 pessoas de outros municípios. Em todo o interior do Rio Grande do Norte, são 51 leitos de UTI para Covid, 70,1% ocupados.A situação se repete no Ceará, onde só 2 em cada 10 leitos de UTI para Covid-19 estão no interior. Ao todo, são 128 leitos no interior, 93 deles com as vagas preenchidas.Com cerca de 70 mil habitantes, Quixeramobim (a 246 km de Fortaleza) é a cidade que enfrenta situação mais crítica, com 100% dos 30 leitos de terapia intensiva com pacientes. Em Sobral (200 km da capital), quase 90% dos 36 leitos de UTI estavam ocupados."A situação nos preocupa muito", afirma o secretário de Saúde do Ceará, Dr. Cabeto. Ele diz que serão abertas novas UTIs no hospital regional de Sobral.No Maranhão, os 105 leitos de UTI no interior do estado têm ocupação de 82%. Em algumas cidades, já não há mais vagas, caso de Imperatriz, segunda maior cidade do estado. Lá, todos 22 leitos de UTI para Covid-19 estavam ocupados nesta quarta-feira (13).Em nota, o governo do Maranhão informou que vai ampliar a rede de Imperatriz com 30 novos leitos de UTI.Mesmo em estados com situação relativamente mais tranquila há regiões com maior disseminação da doença no interior. É o caso da Bahia, que tem ocupação geral de 51% dos leitos de UTI. Mas cidades do sul do estado já registram ocupação acima de 90% dos leitos de UTI e começaram a adotar toque de recolher.Em Jequié, o Hospital Prado Valadares tinha 100% dos nove leitos de terapia intensiva ocupados na sexta. A situação é semelhante em Itabuna, que chegou a ter 90% de ocupação de UTIs esta semana."Precisamos abrir novos leitos rapidamente", resume o secretário de Saúde de Itabuna, Wildson Nascimento. Ele aguarda a abertura de 15 novos leitos para pacientes graves nas próximas semanas.Na vizinha Ilhéus, a ocupação chegou a 100% há duas semanas. Nesta sexta, 20 dos 31 leitos estavam com pacientes.Uma das consequências do avanço da doença no interior da Bahia é a pressão sobre o sistema de saúde de Salvador. Na capital, a ocupação dos leitos de UTI públicos já chega a 81%, com muitos pacientes de outras cidades.Em outros estados, há casos em que o movimento de pressão se dá no sentido contrário, com pacientes da capital rumando para o interior. É o caso de Caruaru (135 km do Recife), que atualmente tem 100% de seus 30 leitos de terapia intensiva ocupados."Recebemos muita gente vinda da capital, mas, agora, esse fluxo diminuiu", afirma Marcelo Cavalcanti, diretor do hospital da rede estadual Mestre Vitalino, em Caruaru.Na cidade, seis pacientes internados em um hospital municipal e em uma UPA aguardavam uma vaga de UTI desde 11 de maio.Para ampliar a oferta de leitos, o governo de Pernambuco anunciou a construção de três hospitais de campanha em Caruaru, no agreste, Serra Talhada e Petrolina, no sertão.Outros estados também registram essa movimentação da capital para o interior, caso do Rio de Janeiro, onde pacientes da capital tem sido transferidos para um hospital em Volta Redonda, a duas horas de distância.Já no estado de São Paulo, prefeituras como a de Campinas (a 98 km da capital) solicitaram formalmente que a secretaria Estadual de Saúde não envie pacientes com Covid-19 à cidade.

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