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Curadoria Hilst
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    Porque precisamos salvar a Cinemateca

    O risco de incêndio no coração de nossa memória cinematográfica

    | ACidade ON

    A guarda da Memória - que faço questão de escrever com "M" maiúsculo - sempre teve para mim grande apelo afetivo e, na prática, permeou boa parte de minha vida profissional. O elo mais óbvio é a presidência que exerço no Instituto Hilda Hilst e que tem como cerne temas ao redor dos desafios de preservar e democratizar o acesso à memória de Hilda e da Casa do Sol. Porém foi na Cinemateca Brasileira que, pela primeira vez, tive contato com a extrema complexidade que envolve este tema.

    Em 2004, por acaso mesmo ano em que Hilda faleceu, eu estava buscando bicos na área de cinema e uma amiga me indicou para um trabalho que iria filmar todo o processo de restauro da obra cinematográfica do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, autor de clássicos como "Macunaíma" e "Garrincha, a alegria do povo".

    O restauro foi realizado numa parceria entre a Cinemateca Brasileira e a Teleimage, e envolveu grande número de técnicos altamente especializados que compunham o quadro de funcionários da Cinemateca. Me lembro como se fosse hoje dos rituais de segurança que precediam as filmagens que eu realizava dentro dos acervos e o cheiro forte de vinagre que vinha dos setores em que o material fílmico estava mais deteriorado. Aquele cheiro era sinal inclusive de risco de incêndio, e o controle de temperatura se fazia uma dentre muitas medidas fundamentais que diminuíam o ritmo da deterioração para permitir que àquelas obras não se perdessem.

    E era sempre a sensação de urgência pela preservação da memória que norteava o trabalho daqueles funcionários públicos. Dependia deles que os filmes que compõe a multiplicidade de cores e olhares de nossa identidade nacional continuassem vivos para as próximas gerações. Lá eu vi muitos episódios do Canal 100, cinejornal esportivo que registrou a arte de Pelé com a camisa canarinho, ou então filmes do Exército Brasileiro durante nossa participação na II Guerra Mundial. Está lá também toda a produção de gênios de nosso cinema como Glauber Rocha, Mário Peixoto e Eduardo Coutinho, sem contar toda a produção contemporânea que contará para nossos filhos e netos quem fomos nós.

    A Memória de uma Cultura é tudo que resta dela quando chega ao fim a sociedade que a criou. A obra de arte é, antes de qualquer coisa, um grito de resistência contra a nossa própria morte, seja no âmbito do indivíduo, seja no das civilizações - afinal, sociedades também chegam ao fim -, e quando a Gestão Federal sob a batuta do Presidente Jair Bolsonaro decide deixar uma instituição como a Cinemateca Brasileira sem receber nenhum tipo de repasse financeiro desde o inicio do ano não está colocando à deriva apenas os funcionários que hoje guardam essa Memória, mas também - e principalmente - ameaçando com uma segunda morte todos os cineastas que nos formaram enquanto nação, além de estar ceifando das futuras gerações o direito de conhecer o processo civilizatório brasileiro.  

    E depois do incêndio, pouco resta além de chorar como fizemos com o Museu Nacional.


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