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Curadoria Hilst
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    2020 - O Ano Que Não Começou

    2020 não chegou a começar, um ano que entra para a história como um intervalo. Epílogo de uma vida, prólogo de outra.

    | ACidade ON

    2021
    Há anos que não acabam, marcados por conflitos inacabados ou desavenças mal-resolvidas. Outros são amaldiçoados, lembrados como 'Annus Horribilis' - uma brincadeira com a expressão latina "Annus Mirabilis". O ano de 2020 às vezes parece com um, às vezes com outro, mas a mim não convence nem como inacabado, nem como horribilis. Simplesmente não começou. 

    O grande acontecimento do ano de 2020 aconteceu em 2019 - a COVID19, que leva no nome o ano de sua descoberta ou identificação. A vacina virá em 2021 e retomaremos às ruas celebrando o início de 2021. Como se 2020 não tivesse acontecido. E não aconteceu mesmo. É um ano que ficará marcado como um intervalo. Algo entre o primeiro ato e o segundo ato de uma peça, aquele breve período para dar uma corrida ao banheiro, ou comprar uma água e um chocolate na bomboniére. Os atores, bailarinos, músicos, aproveitam para descansar um pouco, trocar o figurino, o cenotécnico arruma o objeto de cena que caiu, troca-se um cenário, conserta o linóleo com uma fita rosco e já que se iniciará novamente o espetáculo. 

    Talvez haja algo a mais nesse intervalo do que sonha nossa vã filosofia.  

    Pode ser que tenha sido o epílogo de uma era. Para a Cultura e as Artes no Brasil certamente foi esse momento em que o roteirista nos revela o que houve com os personagens depois da tragédia toda. Finalmente podemos refletir e tomar consciência de que os modelos de gestão, financiamento e produção de Arte e Cultura estavam exaustos. Como pacientes em coma profundo, resistiam numa vida suportada por aparelhos, respiradores artificiais, profissionais e familiares abnegados que esperançosos aguardavam um milagre. Nesse sentido, o epílogo foi bom. Dá uma sensação de conclusão, um misto de alívio e nostalgia, tristeza com liberdade. Aquela história se acabou -  pena, mas podemos seguir para a próxima - que bom. 

    O que nos leva, então, a explorar a possibilidade de que 2020 tenha sido talvez um prólogo para o que virá. Trata-se do momento em que o autor tenta estabelecer para nós, leitores, o contexto em que pretende desenrolar sua história. Quais serão as premissas que temos que considerar ao lermos as próximas páginas, que padrões e dinâmicas constroem o universo em que vivem nossos heróis, em que espaço-tempo, em que velocidade devemos esperar conhecer os conflitos que virão a seguir. E eles virão, sem sombra de dúvida. Sentimos aquela gostosa curiosidade pelo que nos espera, misturada à angústia e medo pelas decepções que podemos encontrar. É o momento em que tenhamos, sem perceber, escolhido o livro que vamos ler, o espetáculo que vamos viver daqui por diante.  

    O prólogo trouxe dois personagens importantes para o próximo ato: o mundo virtual, suas linguagens, suas proximidades e distâncias; e a presença forte e direta do Estado com a Lei Aldir Blanc. Vamos para o primeiro capítulo, ansiosos para ver o que vão aprontar esses dois personagens vigorosos. 

    Renato Musa é Consultor de Negócios Culturais, diretor executivo da RMusa Responsabilidade Cultural e Diretor do Instituto Hilda Hilst. Escreve às quintas-feiras.