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Obsessão eleitoreira no Renda Cidadã coloca o pais em risco

A tentativa de não respeitar o Teto de Gastos para criar a nova despesa do Renda Cidadã é aventura de perigosas consequências

| ACidadeON/Araraquara

A discussão das formas criativas para o financiamento do programa de transferência de renda do governo federal, agora batizado como Renda Cidadã, revela o quanto a intenção de conseguir algo em proveito próprio, e a qualquer custo, pode causar de grave. O esforço para criar o novo programa está permitindo que atores os mais diversos, começando pelo ministro da economia, ao reunirem-se criem sinergia negativa. Entre inconsistências e contradições, as afirmações tornadas públicas já causaram danos de longo prazo. A queda na Bolsa de Valores em conjunto com a elevação da taxa de juros são dois subprodutos já verificados. 

O fato é que o presidente Jair Bolsonaro, embalado por pesquisas de avaliação de seu governo, percebeu que a "opção pelos pobres", mesmo tardia e nada franciscana, é hoje a única alternativa eleitoral para sua reeleição. Ocorre, porém, que não haverá recursos públicos até o ano de 2022 para continuar a agradar. O relator da matéria no Congresso Nacional - senador que recentemente tentou fazer valer o fim de reservas florestais em propriedades rurais -, seja em entrevistas ou em propostas apresentadas, não consegue convencer a burlar o teto dos gastos. Para onde esse personagem corre, não importa a mando de quem, encontra beco sem saída. Vale observar que o teto de gastos, tão criticado à época de sua proposta, é hoje garantia para que aventuras não prosperem. 

O ruim disso tudo é que o despertar para os excluídos, revelados pela pandemia, encontrou no poder o personagem errado. Esse não se comove com mortes de brasileiros ("e daí?") nem com sofrimentos humanos, torturadores que o confirmem. Esse somente vê nos sujos, feios e malvados sua chance de reeleição. O que o dirige é a percepção de que sua base política está desidratada. Movimentos "espontâneos" e alternativos, passando por viúvas inconsoláveis de um ficcional liberalismo e moralizantes altivos, já lhe dão ostensivamente as costas. 

Apesar disso tudo, duvidar da capacidade de estrago e de fazer valer as intenções oportunistas é subestimar a possibilidade de danos graves. Na confusão política que aqui se estabeleceu, no cenário de crença no irreal e na desarticulação das forças vivas que há, a boiada poderá ainda passar, mesmo que com o pasto em chamas. 

Na realidade a condição de povo que nunca desiste está à prova. O resultado poderá ser a cruel pergunta: até a resiliência pátria era mera fantasia? Que as reflexões, iguais as causadas dentro da cova reaberta para a exumação de ossos, em que se dá o observar, entre as mãos, de frias cavidades de um crânio, permitam não nos atordoar. A lucidez poética, confiança não expressa por meio da razão e claro raciocínio, junto com boa dose de otimismo, terá que ser a guia nessa noite insana de delírios. Melhor é no fulgor do saber se fiar, pois sempre será esse garantia contra a barbárie e, ao que parece, quase nada mais nos resta. Que Quino, agora celestial, nos proteja!

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