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Wakanda não existe...

O mundo real é outro: Wakanda não existe. Seguimos continuamente com as lutas antirracistas por reconhecimento e valorização da cultura negra

| ACidadeON/Araraquara

Wakanda não existe...
Nesse instante, o mundo ainda está em luto pela morte precoce do jovem ator negro de 43 anos, Chadwick Boseman, que lutava há anos contra um câncer de cólon, no último dia 28 de agosto. Boseman havia interpretado um herói negro e líder carismático no filme Pantera Negra (Black Panther, 2018), uma produção que se tornou a maior bilheteria de longas-metragens de super-heróis da história cinematográfica mundial.  

Tanto sucesso, se explica, em parte pelos bastidores do projeto e do filme, chamando a atenção, de forma inédita na indústria cultural estadunidense, para o quadro de atores e atrizes majoritariamente composto por negros e negras. Para além do sucesso, um fato sobre o filme, chama-nos à atenção, principalmente nos dias atuais, que é a questão da reflexão sobre a importância da representatividade.  

Boseman se tornou um ícone e sua presença inspirou milhares de crianças e adultos negros a seguirem seus passos na luta por um mundo melhor, haja vista seu inegável valor para a representatividade da cultura negra, em especial, em um dos campos mais hostis para a positivação do "ser negro", a saber, o cinema, que sempre produziu o contrário, o negro marginal.  

Mas, o mundo real é outro: Wakanda não existe. Seguimos continuamente com as lutas antirracistas por reconhecimento e valorização da cultura negra, e recentemente impulsionado pelo lamentável episódio racista do assassinato ao vivo de George Floyd, cuja morte deflagrou um movimento mundial pelos Direitos Humanos e combate ao racismo com o uso da máxima "Black Lives Matter".  

O filme nos faz refletir sobre novas formas de construir o "ser negro" e suas culturas, colocando como ponto de inflexão a possibilidade de se construir um mundo de consciência sem racismo. O filme nos propõe pensar um devir futuro, onde é possível transar a ancestralidade com a modernidade, vivenciar a tradição paripassu com o progresso, e de maneira palpável, viver num mundo sem racismo e possível para todos.
A representatividade do filme, referenciando a cultura negra e nos levando a imaginar um ambiente altamente tecnológico e rico, habitado por uma população saudável, inteligente e guerreira, com boa formação educacional e política e, sendo protagonista no desenvolvimento de novas formas de administrar o mundo e, mantê-lo em harmonia e paz. Representatividade, esta, escassa nos bastidores da vida real e comum, infelizmente, diferente do ambiente idílico do filme.  

Na realidade não temos heróis nem habitamos num mundo altamente desenvolvido, o cenário, é outro, vivemos num verdadeiro abismo, onde a morte prevalece sobre a vida, e pior, a sociedade contemporânea naturalizou a morte, principalmente dos corpos negros.  

Naturalizou, de tal modo que não nos espantamos mais com o assassinato de milhares de jovens pretos e periféricos, de mulheres, em sua maioria negras e do extermínio escancarado dos povos indígenas. E essa não deixa de ser a faceta mais nefasta da sociedade, por trás de toda esta tragédia, ainda vivenciamos o descaso e ausência de políticas públicas eficazes por parte do Estado, para salvaguardar estas vidas. Estado tomado de assalto por elites dominantes pouco sensíveis aos dramas e injustiças sofridos pela população negra, perpetuados pelo racismo e a discriminação, que nos escraviza duplamente nestes tempos, pela violência e pela miséria.  

Pantera Negra e Chadwick Boseman, através da magia do cinema, por alguns minutos nos fizeram sonhar e embevecidos por este devaneio, encerro aqui com a frase de um outro herói, morto pela intolerância de uma geração, o Dr. Martin Luther King, que há 57 anos, nos disse: "À medida que caminhamos, devemos assumir o compromisso de marcharmos em frente. Não podemos retroceder." Luther King e Boseman, presentes!!!  

OBS: O blog Multipli_Cidade é feito coletivamente e apresenta, semanalmente, textos inéditos de uma rede de pesquisadores vinculados ao Laboratório de Política e Governo da UNESP/Araraquara.

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