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O "Vapo" flamenguista dominou a Avenida Presidente Vargas

Contra o River Plate, o Flamengo deixou claro que ainda tem margem para evolução, tendo em vista que a equipe argentina foi melhor em boa parte da partida

| ACidadeON/Araraquara

O Flamengo conquista o bicampeonato da Libertadores após vencer o River Plate por 2 a 1. (Foto: Henry Romero / Reuters)
Nesse final de semana, o Flamengo alcançou um feito, até então, só realizado pelo Santos de Pelé: a conquista, em um mesmo ano, do Campeonato Brasileiro e da Copa Libertadores da América.  

Se 38 anos se passaram até o segundo gol de Gabriel Barbosa, a derrota do Palmeiras para o Grêmio, em casa, por 2 a 1, sentenciou a chegada do rubro-negro carioca a um patamar que ninguém atingia desde 1963.  

Já é Carnaval no Rio de Janeiro, e o bloco "Vapo" dominou a Avenida Presidente Vargas.  

Em Lima, na primeira final da Libertadores com jogo único, contra o River Plate, o Flamengo deixou claro que ainda tem margem para evolução, tendo em vista que a equipe argentina jogou melhor do que o time brasileiro em boa parte da partida. Para ser campeão, é necessário saber vencer mesmo sem jogar bem. Foi assim que o Flamengo, na base da persistência, virou o jogo com dois gols nos minutos finais, chegando à vitória por 2 a 1.  

Em campo, eram cinco anos de um vencedor projeto de longo prazo contra um time que não tem nem seis meses juntos.  

Por isso, se a direção do Flamengo souber semear o que foi plantado durante esse ano, é possível que a equipe carioca seja ainda melhor em 2020.  

Nesse sentido, o excelente trabalho desenvolvido pelo português Jorge Jesus levantou a questão sobre a qualidade dos treinadores brasileiros em comparação com os técnicos estrangeiros que aqui trabalham.  

Um olhar viciado, que superdimensiona a figura do técnico como o único responsável pelo sucesso esportivo de um clube, nos impede de perceber a dinâmica estrutural que produz essa discrepância.  

Temos um campeonato em que os clubes fazem roleta-russa com seus treinadores, com equipes que não definem sua identidade de jogo e nem planejam à longo prazo quais resultados querem alcançar. Além disso, temos um calendário inchado, em que interesses políticos e comercias se sobrepõe à preservação da qualidade do nosso jogo.  

Os treinadores brasileiros são frutos desse cenário. Assim como dizer que esses profissionais estão ultrapassados não passa de generalização, é ignorância desconsiderar que foi uma melhor organização do futebol que fez com que o esporte jogado no Velho Continente se tornasse melhor do que o praticado no Brasil.   

Portanto, cobramos um heroísmo quixotesco de nossos técnicos quando a solução passa por uma mudança estrutural do futebol brasileiro.  

Por isso, não são todos os treinadores europeus que são como Jorge Jesus, mas é necessário analisar o mérito do técnico português considerando o contexto em que ele se formou.  

Em texto publicado na Folha de S. Paulo, Ricardo Araújo Pereira conta que a primeira coisa que Jorge Jesus faz, quando contratado por um clube, é contar aos seus atletas que, em 90 minutos de jogo, cada um deles fica, em média, 1 minuto e meio com a bola nos pés. Seu trabalho consistiria em ensinar aos jogadores o que fazer nos outros 88 minutos e meio, quando estão jogando sem a bola.  

Os bons treinadores brasileiros, menos antiquados do que imaginamos, sabem desse dado. Nós que formamos a opinião pública sobre seus trabalhos, não.  

Se ainda tivermos uma leitura simplista sobre o jogo, é inócuo cobrar que os nossos técnicos sejam melhores.  

Por fim, que a campanha vitoriosa do time da gávea não tire de nossa memória o dia 8 de fevereiro desse ano, quando ocorreu o trágico incêndio nos alojamentos do Ninho do Urubu, que levou à óbito dez meninos que atuavam nas categorias de base do clube.  

O Flamengo ainda tem uma dívida com as famílias desses garotos, e não há dinheiro no mundo que amenize a dor da partida de cada um deles.

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