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Território da Arte começa digitalmente neste domingo (13)

Evento de artes visuais apresenta grande diversidade do panorama de arte contemporânea nacional, exposição será online

| ACidadeON/Araraquara


"Um dia qualquer" do artista moçambicano Gunga Guerra foi uma das obras premiadas no Território da Arte de Araraquara (Foto: Divulgação)

O Território da Arte de Araraquara, evento de artes visuais, será neste ano em formato digital devido à pandemia da Covid-19. A exposição online começa neste domingo (13) e conta  com a participação de 31 obras selecionadas e 10 premiadas . As obras podem ser conferidas no canal da Prefeitura de Araraquara no Youtube (www.youtube.com/prefeituradeararaquaraoficial).

A 17ª edição do Território da Arte de Araraquara traz como tema: "Geografia do fazer e do sentir. Nosso lugar. Morada: ética, estética e estesia", tendo como homenageada Lucinda Bento, artista que faleceu o ano passado. O júri técnico especialmente convidado para a edição digital foi formado pelo galerista espanhol Carlos Jimenez e pelo educador do MAC (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo) Evandro Nicolau. Também compuseram a comissão de jurados: Carolina Guimarães, representando a Secretaria Municipal da Cultura, e Rita Michelutti, curadora do evento e representante do Conselho Municipal da Cultura.

Evandro Nicolau e Carlos Jiménez Vázquez, para a seleção do Território da Arte, avaliaram os critérios: qualidade artística e poética, ineditismo da proposta e coerência conceitual, adequação ao tema proposto, originalidade, compatibilidade com as condições técnicas e espaciais disponíveis, o diálogo com a proposta conceitual da mostra e a participação do escopo das artes visuais em sua amplitude conceitual.

"O 17º Território de Arte revela a grande diversidade do panorama de arte contemporânea nacional. Me surpreendeu, tanto a qualidade dos participantes quanto a abordagem do tema do confinamento social", apontou Vázquez, que tem origem espanhola e reside em São Paulo, onde organiza exposições e gerencia a Galeria Godê. "Suportes como o vídeo e a performance foram um destaque e revelam um novo tipo de linguagem visual e artístico. Sem dúvida o edital supre uma lacuna no cenário da arte contemporânea", defendeu.

O artista, historiador da arte, curador e professor Evandro Nicolau conta que um dos seus grandes prazeres é ter a possibilidade de ver arte, nas suas mais diversas e variadas maneiras. "Poder ver os 85 trabalhos inscritos no 17º Território da Arte de Araraquara foi uma dessas oportunidades de entrar em contato com a imaginação dos artistas frutificadas em obras de arte", revelou. "Por isso, eu que sempre concebi a arte como algo que avança para além do juízo crítico de melhor ou pior, uma vez que observo muito a arte como função social, não me é tarefa fácil participar de um júri. Muitos jovens enviaram trabalhos e também muitos artistas que estão aí na luta há tempos, porém, o mais importante é fazer com que a arte exista, com que existam os artistas, ainda mais nestes tempos em que vivemos."

Evandro destacou as manifestações dos artistas gravados em vídeo. "Isto é uma coisa muito legal nessa edição histórica, graças a uma pandemia e a um momento político alucinado no país. Acho que a arte deve que ser vista, debatida, publicada, estimulada, aberta para a participação de muitos e diversos atores, e o Território da Arte de Araraquara tem esse belo e importante papel no interior de São Paulo."

E mais do que isso, Evandro foi além com uma mensagem também aos artistas: "Continuem, acreditem no poder transformador da arte, no poder de tocar corações e mentes em busca de colocar no mundo novas formas de comunicação simbólica que possam contribuir com o desenvolvimento humano".

SELECIONADOS E PREMIADOS   

O artista de Araraquara Willian Andrade teve a sua obra - em pastel seco e lápis de cor sobre papel Mi-Teintes 160g/m2 - selecionada para a mostra digital. "Com as cores dos pastéis secos e lápis de cor pude colocar uma nova leitura sobre um retrato de um amigo querido e dialogar com a sensação inóspita dos afetos afastados", contou. 

"Quando vi o tema 'Geografias do Saber e Sentir', pensei em como a pandemia trouxe um novo paradigma sobre o fazer e sentir artístico, trabalhos foram cancelados e, nesse momento, tivemos que nos voltar para dentro de casa e de nós mesmos". Afinal, Willian lembra: "produzir arte é, sobretudo, construir diálogos do 'eu' com o mundo de fora".

Maikon Rogério Lussari é outro artista selecionado para a mostra, com sua obra em pastel oleoso. Nascido em Araras e morador de Ubatuba, Maikon traz como tema de suas obras: a roda da vida, as pessoas que dançam, que amam, se entristecem e se destroem com o olhar fixo na lua branca ou na parede suja de um hospital. "Estou feliz por ter sido selecionado para o 17º Território da Arte de Araraquara neste momento tão confuso. Nós artistas estamos tentando fazer nosso melhor humano", desabafou.

Além das 31 obras selecionadas, o Território da Arte também irá premiar dez artistas com R$ 800. Um dos premiados é Gunga Guerra um artista visual, que vive entre três fronteiras identitárias: Moçambique, Portugal e Brasil. Sua obra "Um dia comum", acrílica sobre tela, retrata uma cena urbana e inusitada: dentro de uma estação de metrô várias gazelas africanas começam a sair de todos os lados e tentam escapar de maneira caótica e aleatória do avanço organizado e em bloco da tropa de choque.

"Essa tropa representa um obstáculo, um muro. É uma alegoria da situação dos imigrantes e dos refugiados", esclarece Gunga, que devido ao seu background de imigrante por força da guerra, levou-o a se interessar por questões político-sociais. Cruzando referências do fotojornalismo, seus temas remetem a busca de identidade, memórias e pertencimentos a esse lugar desconfortável que, paradoxalmente, o impulsiona para a ação.

Gunga considera que foi "muito generosa e acertada" a decisão de manter a mostra de forma virtual, por conta das circunstâncias atuais. "Isso é muito importante como estímulo para os artistas e super importante ainda distribuir premiação como um reconhecimento da singularidade de alguns trabalhos. Super feliz com o resultado", comemora.

Também premiado, o artista de Araraquara, Christophe Spoto estará representado com "Flamboiã", um desenho em grafite e aquarela artesanal. "O flamboiã é uma árvore que fez parte de minha infância, árvores que eram pequenas e cresceram rápido, eu as vi crescer, fazem parte de minha memória afetiva. Hoje as reencontro nas vizinhanças de onde habito. E assim elas se incorporam aos fragmentos da natureza que resistem na paisagem urbana, tema central de minha obra, a natureza, a brava natureza que sobrevive nos espaços urbanos - eu ignoro as construções e artefatos humanos - a serena harmonia da natureza", aponta.

Christophe utiliza os mesmos materiais que os pintores do Renascimento pintavam o mundo em que viviam. "Faço minhas tintas com materiais naturais como a malaquita e o vermelhão porque tenho essa necessidade poética", defende. Sobre o prêmio, Christophe disse ter sido "uma grata surpresa" recebê-lo. Segundo ele, "Geografias do saber e do sentir", o tema de reflexão proposto pela curadoria, lhe pareceu muito pertinente ao momento atual, o que o motivou a se inscrever no Território.

"Pessoalmente não consigo conceber a ideia de uma arte deslocada de sua realidade, por mais poética que seja, não consigo imaginar uma obra significativa que não tenha sua raiz na realidade. A arte pode se contrapor poeticamente a uma realidade áspera e estéril, triste e bruta, apresentando a beleza de nuvens brancas brincando no céu azul - com a consciência de ser aquele um contraponto de luz em uma cena sombria. Mas me parece impossível construir uma obra significativa ignorando a vida que banha nossos olhos com luz", diz.

Os artistas com obras premiadas são: Alexandre Silveira, Augusto Sampaio, Christophe Spoto, dmp - Daniel Paschoalin, Fábio Florentino, Gu da Cei, Gunga Guerra, Jeff Barbato, Juliana M R e Vita Pereira. Entre os selecionados estão: Alex dos Santos, Alex Robert, Allydi, Amanda Rocha, Baby Basseto, Barbel, Bi-lous Tri-lous, Camillat, Chico Silva, Claudio Lara Ruiz, Débora Censi, Diego Pinotti, Felipe Góes, Gilio Mialichi, HDomingues, Iberê Romani, Kadi, Larissa Camnev, Leo Jiricó, Maikon Rogério, Marcelo Asth, Márcia Rosemberguer, Mazzon Gil, Monaliza Vituci, Paulo, Rodrigo Vulcano, Silva Ruiz, Thiago Goya, Wagner Mangueira, Washington Pastore e Willian Andrade.  

"Neste ano de 2020, o Território da Arte de Araraquara completa seus 17 anos, já esbarrando na maioridade. Neste ano de 2020, pela primeira vez em sua história, o Território da Arte de Araraquara não será palco de exposições nos espaços culturais, não terá intervenções em praças e jardins, não terá instalações espalhadas pela cidade, enchendo os olhos dos transeuntes de surpresa e curiosidade", aponta a secretária municipal da Cultura, Teresa Telarolli.







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