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Política

Garrido indica tratamento precoce contra covid em Araraquara

Documento foi encaminhado, nesta terça-feira (6); especialista afirma que não há comprovação científica

| ACidadeON/Araraquara

Indicação é assinada por Marcos Garrido (Patriota), vereador em Araraquara (Foto: Divulgação/Câmara)
 

Uma indicação na Câmara, assinada pelo vereador doutor Marcos Garrido (Patriota), pede para que a Prefeitura de Araraquara adote o chamado "tratamento precoce" contra covid-19. 

O tema gera polêmica na comunidade médica do País e, segundo especialista ouvido pelo ACidade ON, não há comprovação científica de sua eficácia contra a doença. 

Segundo o vereador, o objetivo é salvar vidas e aproveitar a experiência que tem sido exitosa em outras cidades pelo País. Ele cita como exemplo São Lourenço, em Minas Gerais. 

"O objetivo é salvar vidas. Na verdade há várias cidades que vem trabalhando com o tratamento precoce e tendo bons resultados. Ele não substitui a vacinação, para que não haja confusão a esse respeito, mas ele seria no período enquanto não completa a imunização de rebanho", defende o vereador.  

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Garrido, que é advogado, pede urgência na adoção do tratamento precoce na saúde pública municipal, que até então adota como prática o respeito à autonomia do profissional médico. 

"Estou pedindo para que o prefeito implante esse tratamento precoce, que é justamente no início do tratamento da doença, nos primeiros sintomas", afirma.  

A ivermectina é um dos remédios do kit covid e que não tem eficácia comprovada contra o vírus (Foto: Denny Cesare/Código19)

O documento encaminhado à Prefeitura não aponta uso de medicamentos, porém, questionado, o vereador afirma que é possível uso dos que compõem o kit covid. 

O conhecido kit é composto por, entre outros, medicamentos como azitromicina, ivermectina, cloroquina, hidroxicloroquina e sulfato de hidroxicloroquina. 

"Há necessidade de a Prefeitura entrar em contato com esses prefeitos que estão tendo sucesso e ver qual o melhor caminho. Existe sim a indicação de ivermectina, hidroxicloroquina e vi até uma receita de médico da UPA que receitou. Araraquara deve estar fazendo o teste". 

COMO É O TRATAMENTO EM ARARAQUARA?
No fim do mês passado, a secretária da Saúde, Eliana Honain, esteve na Câmara Municipal para responder aos questionamentos de vereadores. 

Durante a participação na sessão ordinária da Casa, a responsável pelo Comitê de Contingência do Coronavírus disse que o órgão não recomenda o uso do kit covid. 

"Não é essa a situação. Aqui não tem distribuição de medicamento porque a ciência não recomenda. Muito pelo contrário, a ciência mostra hoje que não tem efetividade nenhuma e pode trazer outras complicações", disse Honain, na oportunidade. 

À reportagem, a secretária afirma que não houve mudança nos protocolos do município, que segue respeitando a autonomia do profissional médico para prescrever tratamento aos pacientes.  

Eliana Honain afirma que cidade respeita autonomia do médico no tratamento de pacientes (Foto: Amanda Rocha)

No fim do mês passado, quem também se posicionou sobre o tema foi a Associação Médica Brasileira (AMB) onde, entre outros pontos, condena uso de remédios sem eficácia. 

"Reafirmamos que, infelizmente, medicações como hidroxicloroquina/cloroquina, ivermectina, nitazoxanida, azitromicina e colchicina, entre outras drogas, não possuem eficácia científica comprovada de benefício no tratamento ou prevenção da covid-19, quer seja na prevenção, na fase inicial ou nas fases avançadas dessa doença, sendo que, portanto, a utilização desses fármacos deve ser banida", diz o texto. 

A entidade defende a "autonomia do médico" ao receitar medicamentos para tratamento de pacientes, conforme posicionamento feito em julho do ano passado.  

Epidemiologista e professor da Ufscar, Bernardino Geraldo Alves Souto condena uso (Foto: Reprodução EPTV)

ESPECIALISTA CONDENA USO
Ao ACidade ON, o médico epidemiologista e professor do Departamento de Medicina da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Bernardino Alves Souto, afirma que "não há tratamento medicamentoso precoce contra a covid-19". 

"Medicamentos como azitromicina, ivermectina, cloroquina, zinco e vitamina D não têm nenhuma evidência científica de benefício na covid-19 e ainda podem ter efeitos tóxicos indesejáveis, alguns potencialmente perigosos", explica. 

"A dexametasona só é indicada em casos selecionados para ajudar na recuperação de pacientes graves, tratados em hospitais, mas, também não têm efeito contra o vírus causador da covid. A publicação mais recente da Organização Mundial da Saúde, de 31/03/2021, baseada em ampla revisão de literatura científica, reforça isso", completa. 

Pós-doutor em microbiologia e infecção pela Universidade do Minho (Portugal), Alves Souto reforça que o que há para prevenção da covid-19 é uso de máscara, isolamento social, higiene e vacina. 

"O tratamento que se faz é das complicações que a infecção pode causar, caso a caso, principalmente em pessoas que precisam de cuidado hospitalar, para dar suporte ao organismo para que ele se recupere por seus próprios mecanismos de regeneração. Nenhum medicamento desses que têm sido falados para "tratamento precoce", citados acima, consegue ajudar em nada especificamente contra a covid-19", finaliza.


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