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Política

Azuaite lembra líder da "Revolta da Chibata" e prega mobilização contra racismo

O vereador também citou a morte de George Floyd e afirmou que no Brasil existe o preconceito contra os três pês: pretos, pobres e prostitutas

| ACidadeON/São Carlos

O "Almirante Negro", militar da Marinha de Guerra do Brasil, foi o líder da Revolta da Chibata ocorrida em 1910. Foto: Divulgação
 

"Enquanto existir injustiça e preconceito, perseguição e ódio, nós não teremos uma nação, não teremos um Brasil. Nós teremos um fragmento de população que usa indevidamente o nome deste país, o patronímico deste país, para perpetuar seus interesses, porque para o racista e preconceituoso, tudo o que é de mal é tudo o que é diferente dele, porque essas pessoas não admitem a diversidade e têm preguiça de raciocinar e se entender como ser humano".

A declaração foi feita pelo vereador Azuaite Martins de França (Cidadania) na terça-feira (23), durante sessão plenária da Câmara Municipal, quando relembrou a figura de João Cândido Felisberto, filho de ex-escravos, nascido em 24 de junho de 1880 e falecido em 1969. O "Almirante Negro", militar da Marinha de Guerra do Brasil, foi o líder da Revolta da Chibata ocorrida em 1910.

Azuaite observou que o racismo e o preconceito se mantiveram na sociedade brasileira no princípio do período republicano iniciado em 1889, e fez um relato dos acontecimentos históricos no período em que João Cândido Felisberto se insurgiu contra a opressão imposta pelo poder central da República.

Um ano após a abolição da escravatura, a República restabeleceu os castigos físicos, especialmente na Marinha, onde havia o limite de 25 chibatadas para quem desobedecesse ordens. A Marinha queria mais e no ano de 1910 resolveu açoitar os marinheiros que trabalhavam em navios de guerra com 250 chibatadas. Os marinheiros recrutados compulsoriamente, sendo a maioria descendente de escravos sob as ordens dos oficiais brancos - se rebelaram e tomaram quatro navios de guerra e apontaram canhoneiros para a cidade do Rio de Janeiro. Impasse estabelecido, foi houve muita negociação, o presidente Hermes da Fonseca e Rui Barbosa se uniram e os castigos foram suprimidos. A Marinha não se conformou, logo depois foi armado novo complô e castigados muitos que participaram da revolta, entre eles o líder João Cândido.

Azuaite mencionou que o "Almirante Negro" motivou o poema de Aldir Blanc, recentemente falecido, que se tornou conhecido na música "Mestre Sala dos Mares", de João Bosco, censurada à época de seu lançamento durante a ditadura militar. O vereador citou na tribuna um trecho do poema: "Rubras cascatas/Jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas/Inundando o coração do pessoal do porão/Que, a exemplo do feiticeiro, gritava então:/Glória a todas as lutas inglórias/Que através da nossa história não esquecemos jamais/Salve o navegante negro/Que tem por monumento as pedras pisadas do cais".  

Azuaite Martins de França. Foto: Divulgação/ Câmara Municipal de São Carlos


"Faz 110 anos, mas chamo os senhores a uma reflexão: a escravidão foi abolida, mas o racismo jamais foi e no Brasil se tornou natural numa população majoritariamente negra, diferente dos Estados Unidos, cuja população majoritária é branca", declarou o parlamentar.

Em seguida fez menção ao assassinato brutal de George floyd por um policial branco, fato que gerou mobilização de negros e pessoas de outras etnias nos Estados Unidos e em várias partes do mundo. "No Brasil, o preconceito existe de todas as formas, sobretudo de cor e de religião, e existe o preconceito contra os três pês: pretos, pobres e prostitutas", frisou, elogiando a postura do rapper brasileiro Emicida, que recentemente "expôs sua posição sobre a questão de forma clara e exemplar, testemunhando a prevalência do racismo no Brasil".

Opinou que "é importante que nos Estados Unidos o povo se rebele contra o racismo e preconceito e é importante no mundo tudo isso seja replicado - na Europa e em outros continentes", e acrescentou que "no racismo vigente no Brasil a população mais simples é castigada, violentada, torturada na periferia das cidades, onde brutalidades acontecem no dia-a-dia. E em São Carlos na periferia acontece também".

Concluindo seu pronunciamento, Azuaite assinalou que "é preciso que a consciência desse fato ganhe as ruas, fazendo pressão, tirando esse tema das páginas da grande imprensa e das redes sociais para mudar a situação neste país".

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