Covid-19: algumas considerações sobre desemprego e desigualdade no Brasil

se ampliarmos o conceito de desempregado utilizado nas pesquisas do IBGE, a taxa de desemprego no Brasil, consequentemente, aumenta.

| ACidadeON/Araraquara -

Desemprego aumenta com a pandemia. (Foto: Fotos Públicas)
Diante do impacto gerado pela pandemia da Covid-19 e das necessidades de mudanças de hábitos e estilos de vida, o mundo do trabalho é uma das esferas que passou e tende ainda a experienciar muitas mudanças. O prognóstico evidente é o de que diversos setores deste âmbito, assim como os próprios indivíduos (que acabam tendo sua criatividade própria desafiada) são impelidos a se reinventarem num cenário de distanciamento social. Contudo, esta adaptação e reinvenção, assim como a pandemia em si mesma, explicita um cenário de desigualdades ao qual as classes economicamente desfavorecidas estão expostas, no que se refere à falta de: acesso ao saneamento básico, moradia que lhes permita o distanciamento social e os devidos cuidados, um trabalho digno que não as exponha a riscos maiores de contaminação, um programa de governo que de fato suprisse as necessidades desta parte da população que perdeu seu meio de sobrevivência em meio à crise instaurada pela pandemia, entre outros.  

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), já no 2º mês de isolamento social no Brasil, foi constatado que mais da metade das pessoas em idade de trabalhar estão desempregadas. Abrindo um parêntese: a força de trabalho em potencial não entra no conceito de desempregado utilizado nas pesquisas do IBGE, como é o caso por exemplo dos desalentados, que são aqueles que não procuram emprego por estarem desanimados, e que hoje somam mais de 5 milhões no país. Ou seja, se ampliarmos o conceito de desempregado utilizado nas pesquisas do IBGE, a taxa de desemprego no Brasil, consequentemente, aumenta.  

O fato é que o IBGE divulgou no mês de junho importante pesquisa referente à Pnad Covid-19, que busca identificar os efeitos da pandemia no mercado de trabalho e na saúde dos brasileiros, mostrando que devido à pandemia houve: 1. redução na renda do trabalhador; 2. 19 milhões de trabalhadores foram afastados do trabalho; 3. destes, 9,7 milhões ficaram sem remuneração no mês de maio; 4. a maior concentração de pessoas sem remuneração é nas regiões Norte e Nordeste.  

Os trabalhadores domésticos sem carteira assinada (informais) tiveram a maior taxa de afastamento, com aproximadamente 34%; no trabalho remoto predomina trabalhadores com nível superior, cerca de 38%, enquanto este tipo de trabalho entre aqueles que não possuem nenhuma instrução ou fundamental completo, não ultrapassou 0,6%. Esse é somente um, entre os vários aspectos existentes, que revela, comprova e reforça uma conjuntura que tem como sua marca a desigualdade socioeconômica e um abismo entre as classes mais abastadas financeiramente, daquelas economicamente desprivilegiadas.  

Assim, esses dados possibilitam constatar que os mais atingidos pela crise são aqueles com menor rendimento e com menor grau de escolaridade, golpeando visivelmente as pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade social e que, por esta condição, acabam ficando mais expostas inclusive à contaminação do vírus. 

Este cenário lamentável pelo qual passamos e do qual não sabemos até quando seremos reféns, vem demonstrando a importância da atuação do Estado e a falta que este faz para o provimento de políticas sociais e de saúde necessárias, assim como para a urgente necessidade de estabilizar a economia, com capacidade de gerar e manter empregos, a fim de minimizar uma situação de desemprego estrutural e as consequências decorrentes da desigualdade socioeconômica.  

OBS: O blog Multipli_Cidade é feito coletivamente e apresenta, semanalmente, textos inéditos de uma rede de pesquisadores vinculados ao Laboratório de Política e Governo da UNESP/Araraquara.