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Mesmo aumentando, população em situação de rua ainda é invisível para muitos

Pandemia de Covid-19 fez saltar o número de pessoas vivendo nas ruas, mas alguns continuam a fechar os olhos

| ACidade ON - Circuito das Águas -

De 2012 a 2020, a população em situação de rua cresceu 140%, chegando a quase 222 mil brasileiros em março do ano passado, e tende a aumentar com a crise econômica acentuada pela pandemia da Covid-19. Imagem: Cesar Augusto Ramirez Vallejo/Pixabay
Não tenha medo não
sou só eu um bicho espantadiço
não faço
mal a ninguém
não tenha medo sou só eu
não vês meus olhos caninos
suplicando compaixão.
 

O poema faz parte do livro "Zoobreviver" (Editora Patuá), do ex-morador de rua Eugênio Ramos Gianetti, de 68 anos. Atualmente, reside no Centro de Acolhida Especial para Idosos Morada Nova Luz, em São Paulo, e já está prestes a lançar seu novo livro. O poema revela como ele se sentia ao ser visto pela sociedade. Assim como ele, outro morador deixou as ruas de São Paulo por meio de suas poesias, Gilberto Camporez, autor do livro "Velha calçada".

Camporez chegou a ir ao programa "Encontro com Fátima Bernardes" (CLIQUE AQUI para relembrar/assistir) há três anos e virou notícia. Ele enviou um vídeo ao Alma Inclusiva para falar sobre a difícil vida nas ruas, com humilhações e falta de oportunidades. A sociedade finge não ver essa população, que passa a ser invisível. O problema é que ela vem crescendo a cada dia.

De 2012 a 2020, a população em situação de rua cresceu 140%, chegando a quase 222 mil brasileiros em março do ano passado, e tende a aumentar com a crise econômica acentuada pela pandemia da Covid-19. O dado é do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que este ano não fez nova pesquisa por conta do isolamento social. A análise constatou que a maioria dos moradores de rua (81,5%) está em municípios com mais de 100 mil habitantes, principalmente na região Sudeste (56,2%).

"Com o avanço da pandemia, essas pessoas enfrentam mais dificuldades de acesso à higiene, além de água e alimentação. E, mesmo que quisessem deixar as ruas, não existiria abrigo para todos", alertou o pesquisador do Ipea Marco Antônio Natalino, autor do trabalho, por meio de assessoria de imprensa.

Ele destacou que "é urgente buscar alternativas para o aumento temporário da capacidade de acolhimento, como o uso de escolas e de hotéis, que hoje estão ociosos, e podem ser adaptados com rapidez". Confira a pesquisa completa aquiE a situação dessa população piora com o inverno. Este ano, sete moradores em situação de rua de São Paulo morreram por frio.

Situação em Campinas

Em Campinas (SP), cidade que completou 247 anos nesta quarta-feira (14) e com 1,2 milhão de habitantes, a Prefeitura informa que há 820 pessoas em situação de rua, número maior que a população da menor cidade brasileira, que é Serra da Saudade (MG), com 776 moradores. Os dados se referem a 2019, já que não há pesquisa desde 2020 por conta da pandemia. Isso significa que o número deve ser bem maior. A Prefeitura divulgou as ações que realiza para essa população. Clique aqui para conferi-las. 

"A população de rua vem crescendo. As mulheres em situação de rua vêm aumentando e hoje em dia a gente sabe que famílias em situação de rua é uma realidade e os nossos serviços estão de portas abertas para recebê-los", contou, no vídeo abaixo, Desirée Loschi, coordenadora da Casa de Passagem Nossa Casa, que faz parte do Instituto Padre Haroldo

Entidades e projetos de ações sociais buscam ajudar essa população em Campinas. E o projeto da torcida "Bugrinas em Ação" do Guarani denuncia ação da Prefeitura, por meio da Guarda Municipal, de retirar dos moradores em situação de rua os cobertores doados e diz que a ação foi registrada por mais de uma vez. Segundo elas, os cobertores foram tirados dos moradores, ou seja, não estariam jogados pelo chão.

As voluntárias informaram que denunciaram essa ação dos guardas municipais à Secretaria de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos. Elas enviaram vídeos sobre um dos episódios, onde pode-se ouvir um guarda afirmando que cumpria ordens e comentava o fato de os moradores em situação de rua tomarem a vacina contra a Covid-19 e o filho dele, de 20 anos, ainda não.

Procurada a Prefeitura de Campinas divulgou a seguinte nota:

"A Prefeitura de Campinas mantém uma ampla rede de serviços socioassistenciais, com alimentação, atendimento de higiene, abrigo, inclusão digital, capacitação para o mercado de trabalho e o bagageiro inaugurado este ano -, que é um local específico para que as pessoas em situação de rua possam guardar seus pertences. A orientação da Administração é não pressionar e nem retirar os pertences das pessoas em situação de rua, apenas coletar os objetos abandonados.

Todos os serviços da rede visam atender essa população com dignidade. As pessoas em situação de rua são orientadas a manter seus objetos sob sua guarda e não abandonar nas ruas.

O cata-treco é um serviço que recolhe materiais/objetos inservíveis deixados nas ruas, com finalidade de auxiliar a limpeza dos espaços públicos.

Sobre a distribuição de cobertores, a Secretaria Municipal de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos informa que entrega diariamente, por meio da Operação Inverno, cobertores à população em situação de rua. Mais de 5,8 mil cobertores foram entregues desde o dia 1º de Maio, data do início das atividades.

A Operação Inverno é desenvolvida por meio das equipes do SOS Rua e segue até o fim de setembro. Neste período de frio, o horário noturno de abordagem das pessoas em situação de rua foi ampliado em duas horas, passou a ser das 18h à meia-noite. O objetivo é acolher essas pessoas, se elas aceitarem, e encaminhar aos serviços da rede de proteção, de assistência social (albergue) e de saúde do município. As equipes entregam cobertores aos que recusam acolhimento no albergue.

O SOS Rua conta com equipe multidisciplinar composta por assistentes sociais, psicólogos e educadores que atuam diretamente nas ruas."

Entretanto, questionada sobre quais providências irá tomar sobre a denúncia de retirada dos cobertores, a Prefeitura informou que já havia respondido na nota.

No vídeo abaixo, também contam detalhes de suas ações de atendimento à população em situação de rua as entidades/projetos sociais Projeto Tive Fome, Comando Feminino da Torcida Jovem Ponte (Ponte Preta) e Projeto Formiguinhas do Amor. Esses grupos se mobilizam para oferecer roupas e alimentos para essas pessoas vulneráveis.  


Vacinação

A vacinação dos moradores em situação de rua é de vital importância. Isso porque a imunização dessas pessoas é uma maneira de dar a elas maior qualidade de vida e de prevenir a circulação do vírus em toda a cidade, já que circulam por toda Campinas, especialmente na área central, muitas vezes sem máscaras. Por isso, o Consultório na Rua, do Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira que presta serviço à Prefeitura, está realizando esse trabalho. Ouça abaixo a entrevista dada por Sara Sgobin, coordenadora do Programa de Saúde Mental de Campinas. 


Os moradores em situação de rua são pessoas que precisam ser vistas de verdade e incluídas em nossa sociedade. Muitos se perderam com o uso constante de drogas e de bebida alcóolica, que os ajudam a se esquentar e a enganar a fome, mas que os levam a um círculo vicioso. Isso é uma das causas da complexidade da adesão deles aos serviços públicos. Mas, a agressão simbólica e até a morte são relatos de muitos, marcados por histórias difíceis.

E quando esse morador em situação de rua é LGBTQIA+? O preconceito é ainda maior. Em Campinas, a Casa sem Preconceito acolhe essa população. Saiba mais clicando aqui. Todas as pessoas em situação de rua precisam deixar de ser invisíveis. Precisam de nossa empatia.


Sobre o Blogueiro

Alma Inclusiva

Nice Bulhões é jornalista, disléxica e mãe azul. Pantaneira, nasceu em Corumbá (MS) e mora em Campinas (SP) há mais de 20 anos. Passou por redações de jornais impressos nos dois estados e atualmente faz assessoria de imprensa. No blog, trata de assuntos referentes a todas as formas de inclusão.


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