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Esporte e política NÃO podem se misturar?

Carol Solberg foi denunciada ao STJD depois de gritar "Fora Bolsonaro" após conquistar medalha de bronze do Circuito Nacional de Vôlei de Praia no último dia 20 de setembro. Isso reacendeu um debate (que deveria ser óbvio) sobre política e esporte.

| ACidade ON - Circuito das Águas

Aprendi recentemente que o óbvio precisa ser dito. Porque o que é óbvio para mim, pode nem ser para o outro e vice e versa. Para mim, com vivência no mundo esportivo, uma faculdade de educação física e outra de jornalismo, falar que o que estão fazendo com a Carol Solberg é censura, chega a ser ridículo de TÃO óbvio. Mas pra muita gente esse ainda pode ser um assunto nebuloso.  


Tem uma galera que defende que "Nada a ver misturar política com esporte. O esporte é um entretenimento" e aí meu amigo, devo dizer que você foi brilhantemente enganado pela política do "pão e circo". Ela criticava a falta de informação do povo romano, que não tinha qualquer interesse em assuntos políticos, e só se preocupava com o alimento e o divertimento. 


Olha ela aí, a palavra que virou sinônimo de tudo de ruim que acontece no mundo: política. Vou te dizer algo, e me perdoe se pra você for óbvio essa informação. Viver é um ato político. Todas as nossas decisões são políticas. Precisamos primeiro parar de associar política com partidos e instituições governamentais. Nós fazemos política todos os dias.  


Quando eu escolho ou não separar meu lixo para reciclar, quando eu escolho que curso de graduação vou fazer e pasmem, quando escolho praticar ou acompanhar um esporte, isso também é um ato político. O professor Mario Sergio Cortella diz, brilhantemente que a omissão também é um ato político. Quando eu abro mão de participar da vida pública, em qualquer instância, eu fiz uma escolha, e ela é política.  


Voltemos então para o esporte. Se o ato de separar meu lixo em reciclável ou não é um ato político, por que o esporte não seria? Para mim um dos momentos mais icônicos disso foi Jesse Owens nas Olimpíadas de 1936, em Berlim. Hitler planejava usar os Jogos para propaganda nazista. Mas o velocista negro americano acabou com as pretenções de comprovar a "raça ariana" ao conquistar quatro medalhas de ouro. No pódio, o atleta se negou a olhar para a tribuna de Hitler, que deixou o estádio olímpico.  


Trazendo para o nosso país, dificilmente alguém nunca tenha ouvido falar da "Democracia Corinthiana". Para quem não sabe foi um movimento ocorrido no início da década de 1980, que teve a luta pelo fim da ditadura militar no Brasil como uma das principais bandeiras. Sócrates, Wladimir, Casagrande, Zenon e outros ex-atletas do Timão participaram da campanha pela volta do direito ao voto para presidente, o que não acontecia desde 1960. 


Não faltam exemplos. Só pra finalizar vou citar a NBA. Para conseguir terminar o campeonato em meio a pandemia do coronavírus, foi criada uma espécie de "Bolha" nos complexos Disney, em Orlando. Os jogadores ficam enclausurados e só saem quando eliminados. Mas eles só aceitaram as condições, porque fizeram um acordo com a liga que poderiam protestar contra o racismo e pedir para a população americana ir votar em novembro. Vale lembrar que a maioria dos consumidores de basquete nos Estados Unidos são declarados "democratas", mas ele também representam a maioria das abstenções de voto no país.  


Com a NBA, me aproximo mais do caso do Brasil. Você poderia argumentar, "tá legal, você falou que viver é político e que devemos desassociar isso de partidos, mas ela gritou Fora Bolsonaro". Sim. Gritou. Ela fez um ato político sobre política. Mas Wallace e Maurício também fizeram, ao postar uma foto, ambos com a camisa da seleção brasileira de vôlei, fazendo 17 com as mãos, em alusão ao então candidato à presidência, Jair Bolsonaro.  


Em ambos os casos a CBV publicou uma nota de repúdio contra os atos. Mas, enquanto na nota de repúdio contra o ato de Maurício e Wallace a CBV diz "A CBV repudia qualquer tipo de manifestação discriminatória, seja em qualquer esfera, e também não compactua com manifestação política. Porém, a entidade acredita na liberdade de expressão e, por isso, não se permite controlar as redes sociais pessoais dos atletas, componentes das comissões técnicas e funcionários da casa." Para Carol a entidade foi mais dura. "O ato praticado pela atleta Carol Solberg em nada condiz com a atitude ética que os atletas devem sempre zelar". Em nenhum momento a liberdade de expressão foi citada para Carol.  


Carol foi denunciada ao STJD por manifestação política e será julgada nesta terça-feira (13) às 13h. O Ministério Público, inclusive, protocolou um pedido de explicações para a CBV e o STJD sobre a diferença de tratamento nos casos de Carol e Wallace e Maurício. Mas o pedido foi negado.  


Não acho que Maurício e Wallace devam ser julgados. Assim como não acho que Carol deva ser julgada. O COI (Comitê Olímpico Internacional) e a FIFA (Federação Internacional de Futebol) desautorizam expressamente manifestações políticas nas Olimpíadas e na Copa do Mundo, sob o risco de multas e exclusões. 


Acho isso ultrapassado, visto que o esporte, seja ele profissional ou amador, traz para a mesa crenças e premissas que norteiam a construção de caráter, e consequentemente o papel como cidadão.  


Por fim, finalizo com Evelyn Beatrice Hall "Posso não concordar com uma única palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-la".

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