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As regras do jogo ajudam a entender sua estratégia

Aprender um tanto de Direito Constitucional é bom para todo mundo que gosta de política

| ACidade ON - Circuito das Águas

Como em todo jogo, na política tem dois motivos para chamar alguém de "bom" jogador: a qualidade de atuação e o que se faz com ela. O primeiro critério é a técnica e o segundo, o alinhamento. Numa comparação meio torta com o futebol, o meu vizinho poderia admirar, por exemplo, a habilidade e a visão de jogo do Müller no segundo gol alemão daquele jogo que ninguém esquece. O atacante era um "bom" jogador, tecnicamente, mas nós brasileiros não elogiamos aquilo com o mesmo gosto como elogiamos os passes do Sócrates em 1982, por exemplo. Além de genial em seus passes de calcanhar, Sócrates era "bom" no sentido de fazer o "bem" para o Brasil. O primeiro sentido no qual um jogador é "bom" é o da "boa performance", ou seja, a atuação que ajuda o time a alcançar seu objetivo no jogo; o segundo é o sentido da "boa causa", alguém que tem bons objetivos.

Para conversar sobre o segundo sentido não precisamos nem entender o jogo. Eu torci pela Diane dos Santos antes de saber do que se tratava o duplo twist carpado. Bastava a ginasta ostentar o uniforme, o sorriso e a perseverança de brasileira. Mas, para entender o segundo sentido em que ela era magnífica, eu precisei aprender alguma coisa das regras da ginástica olímpica (as regras da física ela desafiava sem qualquer cerimônia).

Eu sei que às vezes tudo isso fica misturado, como no caso da Carol Solberg. Para quem não acompanhou, indico o elegante e precioso texto da Isabella de Vito sobre o assunto. Não duvido que alguém tenha passado a criticar o jogo da atleta por coanta da sua postura, como também outros passaram a torcer por ela exatamente pela mesma razão. Na teoria, não confundimos nunca o alinhamento e a técnica, na prática não é sempre assim, né?

Assim chegamos na política, onde a gente escolhe os favoritos principalmente pelo alínhamento de propósitos. É o meu jeito de escolher os políticos, chapas, coligações e partidos favoritos. Comemoro as vitórias e engulo amargamente as derrotas, enfim, torço para os que defendem coisas parecidas com aquelas nas quais eu acredito e lutam por objetivos que eu acho importantes para a sociedade brasileira. Eles constroem caminhos para o futuro que eu acho ser o melhor para nós todos, como povo.

Mas também prefiro os "bons" no segundo sentido: os meus favoritos e favoritas precisam ser craques. É difícil torcer para pernas-de-pau como os nossos atacantes naquele 7 a 1 cuja única "jogada" era correr para a área alemã e se jogar no chão. Quem é craque precisa ter algum respeito pelas regras do jogo democrático, precisa honrar a história do campo. No meu caso, a apreciação da política mudou muito depois que aprendi Direito Constitucional, porque aí dava para eu entender melhor o que eles estavam fazendo. Nas outras ciências sociais, como a economia e a sociologia, a gente aprende a "física" da vida política. Não dá para entender Direito Constitucional sem um tanto essas outras coisas, porque falta contexto. É igual a ler o livrinho de regras da ginástica olímpica sem entender os limites do corpo humano e o tanto de planejamento, treino e pura vontade de superação requeridos para superar os tais limites.

Saber algum Direito Constitucional permite entender as estratégias do jogo democrático, por isso ele não pode ficar só nas faculdades de Direito. Por isso é importante ensinar Constitucional sem "juridiquês", sem "economês" e sem "politiquês", mas com grande senso de realidade e atenção à prática política do cotidiano. Não precisa ser complicado para ser fascinante.

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