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Curadoria Hilst
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    A Irrevogável Relevância do Olhar

    O uso de máscaras torna muito mais importante o olhar. Mas isso a Commedia Dell'Arte já sabia.

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    A Menor Máscara do Mundo
      

    Nos anos 90 atuei em uma peça de Teatro como convidado do grupo Deputamadre, com direção de Gustavo Trestini e orientação de Silnei Siqueira, que foi quem me convidou. A peça era nada menos que "O Santo e a Porca", uma versão original de Ariano Suassuna para "Aululária", de Plauto. Trata-se de uma versão, sim; e é original, também. Um paradoxo que apresento aqui para instigar você, leitor ou leitora, a ler uma ou outra ou ambas as peças. E, se ainda tiver um tempinho, emende com "O Avarento", de Moliére, outra "versão original", feita pelo grande mestre francês para a mesma "Aululária". Mas, fugi do assunto...  

    Na montagem do Deputamadre, Gustavo propôs que aproveitássemos toda essa tradição investida no texto de Suassuna-Moliere-Plauto e navegássemos também pela Commedia Dell'Arte. E que usássemos máscaras. Eis o assunto! .
    Qualquer que seja o tal "novo normal", ele aparentemente envolve o uso de máscaras. Minha filha está estudando máscaras africanas na aula virtual; já fizemos oficinas de fabricação de máscaras; e outro dia, no hipermercado, vi máscaras de marcas famosas à venda. Toda vez que saio de casa tenho que sair de máscaras e encontro pessoas sempre usando máscara.
    E foi num encontro singelo na assistência técnica de celulares que tive esta epifania ligando este nosso momento àquilo que aprendi com o Trestini: a relevância que ganha o olhar quando se está usando máscaras. Por um lado, diminui naturalmente a potência da comunicação verbal, o que permite voltarmos a descobrir que uma troca de olhares, muitas vezes, basta para comunicar um "obrigado", um "por favor" ou "com licença". Isso para ficar nas trocas civilizadas mínimas num tempo tão pouco civilizado em que vivemos.  

    De outro lado, as expressões faciais ficam limitadas pela cobertura da máscara e nos obrigam a compensar com expressões dos olhos. Sim, os olhos se expressam muitíssimo e com uma variedade incrível. Janelas da Alma, segundo dizem, conseguem expressar diferentes formas de "obrigado":  irônico, verdadeiro, amável, divertido. As sobrancelhas têm seu papel também, claro; uma piscadinha pode transmitir informação; mas a troca de olhares é o que realmente conecta as pessoas.  

    É nessa troca de olhares, na conexão entre duas almas através de suas janelas, que reside uma nova oportunidade para nós, humanos que ainda resistimos à barbárie, cultivarmos nossa humanidade. Quem sabe fazermos crescer essa nova comunicação, que por menos verbal e mais direta, permita um crescimento de nossa cumplicidade na vida. Posto somos todos cúmplices nesta vida e em nossa história na Terra, não importa o que digam os monstros de pedra que tentam nos tiranizar.
     

    Renato Musa é ator, diretor executivo da RMusa Responsabilidade Cultural e Diretor do Instituto Hilda Hilst. Escreve semanalmente às quintas-feiras.