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Mundo dos Bichos

MEIO AMBIENTE

A cruel pesca do camarão

Na pesca do camarão, 70% do que se captura é devolvido ao mar como se fosse lixo

| ACidade ON

Foto: Divulgação
 

A atividade pesqueira é responsável por aproximadamente 40% da alimentação da população mundial

Dentre os organismos capturados na pesca, os camarões estão entre os animais mais cobiçados, tanto pelo seu valor na culinária quanto por um suposto "status" relacionado ao seu consumo. Infelizmente, a pesca camaroneira pode ser prejudicial para muitos outros animais, que acabam sendo capturados acidentalmente com o camarão. Esses organismos, retirados do mar "por engano", são chamados de fauna acompanhante.  

Estudos demonstram que em média, para cada quilo de camarão pescado, cerca de 13 quilos de fauna acompanhante são descartados. Em um arrasto típico, diversas espécies animais podem ser encontradas além dos camarões, como peixes, águas-vivas, estrelas-do-mar, raias, tartarugas e muitos outros organismos. Uma parte dessa fauna, com maior destaque para os peixes, é aproveitada e comercializada pelos pescadores, principalmente os artesanais. Porém, para a pescaria industrial, que emprega frota mecanizada, esse aproveitamento ocorre em pequena escala. A maior parte da fauna acompanhante é descartada pelos barcos e acaba voltando morta para o oceano.

Alternativas 

Os barcos para a pesca do camarão utilizam um equipamento conhecido como "rede de arrasto". Essas redes são consideradas não seletivas, isto é, não possuem uma maneira de filtrar aquilo que pescam, e acabam capturando a grande maioria dos organismos presentes nas regiões em que são arrastadas. Por isso, como alternativa para a diminuição dessa fauna acompanhante, algumas modificações têm sido estudadas. Aberturas na rede, conhecidas como "saídas de emergência", por exemplo, estão sendo testadas como escape para os animais "indesejados". O aumento do diâmetro da malha da rede também tem sido experimentado, na intenção de que os menores peixes consigam escapar.  

Outra medida importante para diminuir o impacto da prática é o chamado "período de defeso", ou seja, a época em que a pesca é proibida. Esse intervalo permite que camarões (e outros animais) mais jovens consigam sobreviver, se desenvolver e auxiliar a reprodução e perpetuação da espécie. No entanto, um período de defeso mal estipulado, sem embasamento científico, pode prejudicar em larga escala esses organismos, reduzindo ou até mesmo extinguindo grandes estoques pesqueiros.  

Além do fator ecológico, há também o aspecto social do problema, já que muitas famílias dependem da pesca como forma de vida. O pescador Djalma Rosa (mais conhecido como Passarinho), da região de Ubatuba/SP, conhece bem o impacto da pesca camaroneira. Segundo ele, apenas um terço dos peixes da fauna acompanhante é comercializado. O restante (cerca de 70%) é descartado.  Uma alternativa que pode favorecer tanto os pequenos grupos de pescadores quanto a própria fauna marinha são as fazendas de camarões, conhecidas como carcinicultura. No entanto, o método exige algumas precauções. 

Deve-se tomar muito cuidado com a escolha da espécie a ser cultivada. A utilização de espécies naturais de outras regiões pode acarretar sérios desequilíbrios caso os animais escapem dos tanques. Muitas vezes, a competição por território ou alimento pode desencadear a eliminação de espécies nativas.  

A implantação de grandes cultivos pode ser poluente, devido à elevada quantidade de matéria orgânica gerada e que nem sempre recebe tratamento adequado. Além disso, o estabelecimento dos cultivos pode levar à destruição de regiões de manguezais inteiras, o que implica graves prejuízos ambientais.  

A prática irresponsável da pesca de arrasto e a captura da fauna acompanhante podem causar grandes perdas nos ecossistemas marinhos, nos quais as espécies se recuperam lentamente, ao longo de muitos anos. Isso não significa, porém, que as pessoas conscientes devam parar de consumir camarão. Basta que elas se informem sobre a origem dos organismos marinhos que compram, atuando como "fiscais" em prol do meio ambiente. Essa conscientização já representa um grande reforço para a resolução do problema.
 

Texto: Thiago Maia Davanso