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Tínhamos tudo para controlar a covid, mas resolvemos endemizá-la

No meio dessa desinfodemia geral, quem tem acesso à informação é Rei e vai saber o que é SIM-P!

| ACidadeON/Ribeirao

 

Rodrigo Stabeli, Pesquisador Titular da Fiocruz, professor de Medicina da UFSCARe consultor da OPAS/OMS

Hoje eu gostaria de compartilhar com vocês, nobres leitores, mais um pouco de informação verdadeira, no meio dessa esquizofrenia coletiva que enfrentamos devido a grave pandemia causada pelo novo-coronavírus, e no meio da coleção de desinformação que chega para nós por mecanismos de informação formais e informais. 

Digo formal, porque muita informação chega de gente que deveria lamentar cada morte, que acontece bem debaixo do seu nariz. Acho que não preciso citar nome, né? 

A primeira informação importante é que tínhamos tudo para controlar melhor a doença, mas resolvemos endemizá-la. Endemizar significa que colocamos a Covid-19 no nosso portfólio anual de doenças a ser enfrentada ano a ano, relativizando a sua gravidade, como dengue e chikungunya, por exemplo, que também são doenças graves, podem ser erradicadas, mas que não existe vontade política para isso. 

Eu até escuto, nos corredores dos milhares de hospitais que tenho visitado em todo o país, a seguinte frase: "Ainda bem que eu tive dengue e não a tal da Covid"; isso me dói o coração toda vez que escuto. 

Outra frase que escuto demais é: "Ah, mas o Brasil é continental, não dá para comparar com outros países"; essa aí foi mais uma que a "veiculação oficial" plantou na sua cabecinha e te explico o porquê. 

De todos os países que enfrentaram a Covid-19 em dimensões catastróficas, nenhum deles possui um Sistema Único de Saúde para coordenar ações que pudessem cortar o mal pela raiz. 

E olha que, se não fosse o SUS, estaríamos muito piores. Aí vem o setor que vive para desqualificar a Saúde Pública Brasileira (além do IBAMA, IPEA, etc), e a consequência disso é o impacto direto que cada um de nós, pobres mortais brasileiros, sofremos. 

Mas você que possui algum privilégio e está lendo esse texto, talvez me critique e/ou não talvez não entenda a mensagem a seguir, mas faça um esforço. O problema de endemizar uma doença ainda desconhecida, é que não sabemos as consequências das síndromes associadas. 

Síndrome, segundo o dicionário médico, significa conjunto de sinais e sintomas observáveis em vários processos patológicos diferentes e sem causa específica. E é exatamente isso que temos observado em muitos casos que são considerados "recuperados" da Covid-19; são ditos recuperados simplesmente porque não possuem mais o tal PCR+. 

Veja a história de Brendan Delaney contada pela agência de notícias Bloomberg, nessa semana que se passou. Brendan, médico e atleta de 57 anos de idade, costumava pedalar, em treino, cerca de 240 km em um dia. Mas Brendan viu sua vida mudar após o Covid-19. 

Daí você, leitor, já deve imaginar quantos dias Brendan passou na UTI, não é mesmo? Errado, Brendan teve a famosa "gripezinha", intitulada assim por dois Presidentes da República, e que, infelizmente, um deles é o nosso. 

A Covid-19 de Brendan, em seus primeiros 14 dias, foi branda, com tosse leve e febrícula. No entanto, Brendan começou a sentir, após esses dias, um cansaço extremo e falta de ar, que o fez ficar extremamente debilitado por mais de sete meses! 

Isso mesmo, você não leu errado, sete meses, tempo esse em que Brendan não consegue sequer subir em cima de uma bicicleta. O médico relata que, de vez em quando, também apresenta febre, mas que ainda consegue ir trabalhar. Entretanto, ele relata que tem atendido vários pacientes que sequer conseguem levantar da cama, e ainda outros que apresentam falta de memória. 

Essa síndrome está sendo chamada de "Long Term Covid"; aqui no Brasil, temos diversas designações, sendo um deles, numa tradução mais direta, a Síndrome Covid-19 Persistente. Tenho certeza de que você, que está lendo aqui, pode estar passando por isso, ou até mesmo já ouviu alguém relatar sequelas importantes pós-infecção pelo novo-coronavírus. Depois você me conta, ok? 

Ah, e tem mais... Outra síndrome relacionada ao novo-coronavírus, que não te contaram, mas que você deveria saber, é a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica, ou apenas SIM-P, que acomete crianças e adolescentes de 0 a 19 anos de idade, e no momento em que estamos em plena discussão de volta às aulas, e que já falamos disso em colunas anteriores. 

Bom, se é Síndrome, estamos falando de vários processos patológicos ao mesmo tempo, no corpo todo; entre eles estão os processos inflamatórios, que significam que a Síndrome é acompanhada de uma inflamação generalizada na criança ou adolescente, algo semelhante a famosa SEPSIS. 

E, a informação mais importante, e extremamente grave, é que mesmo que os sintomas sejam leves, a SIM-P pode levar a morte caso não tenha assistência médica precoce. 

É como se a criança sofresse de uma "infecção generalizada", um choque séptico onde a falência dos órgãos pode levá-la a morte. A SIM-P pode aparecer em dias ou em semanas após a infecção pelo novo-coronavírus, e é mais comum em crianças e jovens em fase escolar.
Os sintomas mais comuns são: febre persistente, conjuntivite, edema (inchaço) nas extremidades, manchas no corpo, dor abdominal, manifestações gastrointestinais (vômito e diarreia), marcadores inflamatórios elevados, marcadores de lesão cardíaca elevados e, nem sempre, os sintomas respiratórios se fazem presentes. 

Veja você, se estamos falando de uma síndrome infantil, onde 90% das crianças e adolescentes são assintomáticos para os sintomas clássicos da Covid-19, estamos falando de algo extremamente grave, que você, pai e mãe, devem ficar muito atentos e vigilantes, e, de forma nenhuma devem relativizar a doença. 

Segundo o último boletim da Secretaria de Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo, publicado nessa semana, já foram registrados 319 casos (15% no Estado de São Paulo). Dos 77 casos observados em São Paulo, 70% deles necessitaram de internação em UTI, e 23% precisaram ser entubados; houveram 5 óbitos e, entre os 50 casos que tiveram evolução para a alta hospitalar, 16% apresentaram sequelas motoras, cardíacas e neurológicas, o que pode significar uma lesão grave para toda a vida da criança. 

No meio de tanta desinfodemia, causada por interesses escusos e nefastos, não podemos dizer que tudo isso é devido à interesses políticos, porque a Política é algo muito mais nobre do que esse circo que acontece nosso país atualmente. Mas vamos seguindo em frente, tomando nossos ansiolíticos, para sobreviver mais um dia nesse hospício que chamamos de Brasil.


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