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Olga, a vidente

Aos 72 anos e com um bronzeado surreal, ela não cabia no figurino clássico dos nipônicos e fazia questão de ser diferente, original e, pelo menos para mim, única

| ACidadeON/Ribeirao

Fernando Kassab é jornalista (Foto: Divulgação)
Era 1996 e eu estava prestes a decolar em um voo entre Miami e Madri, atrasado por um motivo que tinha nome, olhos puxados, voz grave e alta, e cabelos loiros platinados. Um tanto estabanada e muito fora do horário previsto para estar a bordo (onde todos os demais passageiros já estavam), ela causava estranheza ao atravessar o corredor do avião falando sem parar e gesticulando mais que a hipotética mistura entre Carmen Miranda e Yma Sumac.

Aos 72 anos e com um bronzeado surreal, Olga não cabia no figurino clássico dos nipônicos e fazia questão de ser diferente, original e, pelo menos para mim, única até aquele momento mais tarde eu até conheceria figuras tão exóticas quanto. Mas ali, espremido na poltrona do meio da última fileira do avião, ela me pareceu ser de outro mundo.

Filha de pai japonês e mãe peruana, media mais de 1,80 m, e tinha uma voz que denunciava o hábito que, segunda ela, carregava há mais de 50 anos: fumar como um pirata. Naquele voo, o último daquela companhia a permitir o tabaco a bordo, ela se esbaldou: abateu uma carteira de cigarros longos e fez questão de dizer à tripulação e aos passageiros (impossível escapar de seus decibéis graves) que era uma despedida "daquela companhia aérea". Sua arenga estava fadada ao fracasso: a pioneira da iniciativa antecipou o que aconteceria um ano depois, quando todas as companhias baniram o fumo a bordo.

Não durmo dentro de um avião e até a entrada de Olga a bordo, eu ocupava a poltrona da direita da última fileira, enquanto a do meio estava vazia até a chegada da nissei-peruana. Ela parou ao meu lado e disse, sem a menor cerimônia: "Querido, sou grandalhona, não durmo e me mexo mais que um peixe no anzol. Para o seu bem, troque de lugar comigo", o que me soou mais como uma ordem do que um pedido, mas que se tornou irresistível graças à gargalhada que ele repetiria ao longo da viagem.

Fascinado com a figura e curioso em saber mais sobre a minha companheira de viagem, nem pisquei: pulei para a poltrona ao lado e esperei que ela ajeitasse uma bagagem que mais se parecia com uma tralha de pescaria, divida em sacolas de todos os tamanhos. Quando acabou, Olga disse várias vezes "gracias, cariño" e descobri que foi a melhor coisa que fiz: falava sobre qualquer assunto e tinha uma admiração imensa pelo Brasil, onde estivera várias vezes, sempre ficando em um só destino a cada viagem: "Salvador, Recife, Brasília, São Paulo, Rio...ah, o Brasil é demais! Volto para lá sempre que posso".

Mas seu amor verdadeiro estava no nosso país vizinho. "Sinto um orgulho enorme em ser peruana, de conhecer tão bem o meu país e pelo fato de ter sido o lugar que acolheu meu pai em um momento de grande tristeza e dor que ele vivia no Japão", contou ela, enquanto acendia mais um cigarro. "Mas eu sou louca mesma é pela nossa comida, sem igual no mundo".

Eu, que só conhecia muito bem o ceviche e superficialmente a gastronomia peruana mais raiz, digamos assim, tive uma aula. "Acham que só comemos ceviche, o que é um grande erro. É como dizer que o Brasil é só feijoada e ponto final, uma grande bobagem", afirmou, com aquela voz de trovão e um ar bastante sério. E completou, como se estivesse diante de uma bola de cristal: "virá o dia em que a comida peruana será o novo ovo de Colombo, pode escrever".

Vinte e três anos depois, nenhum país do mundo tem hoje a fama gastronômica do Peru. O ceviche, que Olga citou na conversa, foi uma espécie de abre-alas para o triunfo das delícias andinas e marítimas: ao casar ingredientes como peixe fresco, batata doce, milho, coentro, cebola e pimenta vermelha, entre outras inúmeras versões, a especialidade chegou ao mundo inteiro. Não há país que não tenha pelo menos uma mesa peruana de categoria, até porque o Peru forma milhares de cozinheiros por ano, e eles sabem que o momento é único para imigrar e triunfar em outras terras.

Em casa mesmo, os peruanos são um caso de sucesso sem precedentes na América Latina e um exemplo para países como o Brasil: o Peru acaba de ser eleito o melhor destino gastronômico do mundo e o setor da alimentação foi responsável por arrecadar nada menos que 500 milhões de dólares no ano passado. Uma refeição, por pessoa, nos restaurantes mais estrelados do país, com uma sequencia de degustação de dez pratos, chega a custar mais de 500 reais, sem bebidas ou sobremesas.

Olga acertou em cheio, mas talvez não fizesse ideia de que seu querido país fosse chegar tão longe. O ovo de Colombo vaticinado por ela chegou para mostrar que não existe sucesso fácil, nem êxito que se mantenha por tanto tempo sem o esforço geral dos envolvidos no processo: homens e mulheres, todos os que põem a mão na massa sentem-se responsáveis pelo todo e fazem questão de contribuir. Uma receita de sucesso única, tal e qual aquele cabelo loiro platinado de uma nissei-peruana improvável, com a melhor gargalhada do mundo.

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