Aguarde...

cotidiano

Outubro Rosa: mesmo tardio, diagnóstico de câncer não é o fim

O diagnóstico precoce é o melhor remédio para lidar com um câncer, mas casos descobertos tardiamente não significam o fim. "Paciente ainda pode ter uma vida normal" diz oncologista

| ACidadeON Campinas

Mesmo tardio, diagnóstico de câncer não é o fim (Foto: Unicamp/Banco de imagens)
 Com a chegada do novo coronavírus (covid-19) no Brasil e o início da quarentena de combate à infecção, a população foi orientava a evitar sair de casa para impedir a proliferação da doença que ainda não tem cura, remédio ou tratamento. A medida, no entanto, trouxe impactos negativos ao combate a outras doenças, como o câncer. 

Em Campinas, por exemplo, a necessidade do distanciamento social fez o número de exames de mamografia realizados na cidade cair 60% neste ano, em comparação ao ano passado. Dos 12.938 exames ofertados de janeiro a julho deste ano pelo município, apenas 8.220 foram feitos.

Mas atrasar consultas para evitar a contaminação pelo covid-19 não pode se somar ao medo de um possível diagnóstico para câncer. "Se eu tivesse descoberto antes, poderia ter sido diferente, mas o diagnóstico não é o fim", diz a dentista Cynthia Marques de Almeida, que descobriu um câncer em estágio avançado há 17 anos.  

Foi um nódulo de três centímetros no seio, descoberto quando ela tinha 33 anos, que a levou a procurar um médico. As notícias não eram boas: o nódulo era grande e ela precisaria remover a mama.

Na época, Cynthia parou tudo na vida para dar início ao tratamento. "Foi como se eu tivesse vivido uma pandemia lá em 2003", disse. "Com a diferença que todo mundo estava trabalhando, todo mundo estava vivendo a vida normal e eu estava parada".  

Ela seguiu bem com o tratamento, mas descobriu uma metástase óssea na coluna três anos depois do primeiro diagnóstico e, após sete anos, uma outra metástase, desta vez na costela. "Eu não tive alta", conta.  

Mesmo descobrindo um câncer já em fase avançada e duas metástases depois, Cynthia, hoje aos 51 anos, ainda vê a vida com bons olhos. "Eu estou ótima! Eu não desisti da vida, não", celebra. "A vida é sempre mais importante para mim".  

Mas ela se arrepende de não ter descoberto o câncer antes. "Se eu tivesse descoberto o câncer mais cedo, talvez eu não tivesse perdido a minha mama", conta. "As mulheres precisam perder o medo, deixar essa crença de quem procura acha, porque se achar no começo, que bom!".    

Cynthia aos 51 anos, 17 anos depois de descobrir um câncer de mama (Foto: Arquivo pessoal)

DIAGNÓSTICO NÃO É O FIM  

Para Andre Deeke Sasse, oncologista do Grupo SOnHe (Sasse Oncologia e Hematologia), o paciente não pode ter medo do diagnóstico. "Mesmo com o diagnóstico, o paciente pode ter uma expectativa de vida longa, com qualidade", disse. "O diagnóstico de câncer pode ser uma nova fase de vida".  

Mesmo durante ou após o tratamento, os pacientes continuam a ter uma vida normal, explica o médico. "São pacientes que são produtivas, ativas, trabalham, cuidam dos filhos, cuidam dos pais, cuidam da família, continuam a ter responsabilidade normais enquanto mantém o tratamento e muitas vezes a doença é controlada a longuíssimo prazo", diz o médico, citando Cynthia como um destes exemplos.  

Sasse enfatiza que que o diagnóstico precoce ainda é o melhor remédio, mas nos casos em que ele é descoberto tardiamente, isso ainda não significa o fim. "Ainda assim, mesmo descobrindo um câncer tardiamente, o tratamento pode ser pouco agressivo e pode interferir pouco na vida da pessoa", diz. "Não podemos deixar que o medo [do diagnóstico] nos paralise".

CUIDADOS NA PANDEMIA  

Sasse explica que, pela covid-19 ser uma doença nova, é preciso aprender a lidar rápido com as novas informações.  

"No começo da pandemia surgiu a informação que não havia mortalidade maior em casos de pacientes com câncer, mas, posteriormente, com o acúmulo de casos, concluiu-se que pacientes em quimioterapia, cuja imunidade é mais baixa, tem, sim, um risco maior de complicações pela infecção por coronavírus", conta.  

Ele diz ainda que o mesmo se aplica a pacientes que terminaram a quimioterapia recentemente, mas não aos que realizaram o procedimento há mais de um ano e seguem em acompanhamento.   

"Analisando caso a caso e os dados globais que a gente tem, sabe-se que os pacientes em quimioterapia precisam de um cuidado extremo contra a covid-19", conclui o médico.
Já o restante dos pacientes, realizando outros tipos de tratamento, os cuidados necessários para lidar com a pandemia não são tão diferentes do restante da população.  

MENOS DIAGNÓSTICOS  

Por conta da pandemia, muitas pessoas deixaram de descobrir um câncer. Em números, a SBP (Sociedade Brasileira de Patologia) estima que de 50 mil a 90 mil brasileiros deixaram de receber o diagnóstico do câncer nos dois primeiros meses da pandemia.  

Em Campinas, isso refletiu diretamente no número de exames realizados. Segundo a Secretaria de Saúde da cidade, o número de exames de mamografia realizados na cidade caiu 60% de janeiro a julho deste ano em relação ao mesmo período do ano passado.  

Além disso, uma pesquisa do Ibope Inteligência, a pedido da farmacêutica Pfizer, mostra que 62% de 1.400 mulheres de diversas cidades do país esperam o fim da pandemia para retomar consultas médicas e exames de rotina para a detecção de câncer de mama.  

"Embora o momento exija cuidados para evitar a contaminação pelo novo coronavírus, atrasar consultas e exames pode significar se expor a riscos desnecessários. O monitoramento da saúde precisa permanecer em dia, pois alguns tipos de cânceres mais agressivos podem se desenvolver rapidamente", afirma a diretora médica da Pfizer, Márjori Dulcine. 

Mais do ACidade ON