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Chip? Autismo? Especialista desbanca fake news sobre vacinas

Campinas encerra campanha contra pólio com índices abaixo da meta; professor fala sobre importância de combater negacionismo

| ACidadeON Campinas

"Respeitar a vacinação é questão de responsabilidade social" declarou o especialista (Foto: Luciano Claudino/Código19)

Termina nesta semana a Campanha de Multivacinação e a vacinação contra a Poliomelite. A ação é realizada em Campinas até sexta-feira (30), em meio a um ano em que a cidade não atingiu a meta de nenhuma das principais vacinas indicadas às crianças até os primeiros 12 meses de vida. 

O ACidade ON conversou com um especialista sobre o assunto para responder os maiores questionamentos e declarações dos movimentos antivacina, que têm crescido nos últimos anos no Brasil.  

Os movimentos se baseiam em boatos e informações falsas, e têm ganhado ainda mais força no terreno brasileiro graças às fake news referentes às vacinas contra a covid-19, que ainda seguem em desenvolvimento e já são alvos de politização. 

No país, segundo o Ministério da Saúde, entre as 15 vacinas do calendário infantil brasileiro, que incluem a imunização contra a poliomielite, metade não bate as metas há cinco anos. No estado de São Paulo, cobertura contra poliomielite atinge só 12% do público-alvo. 

NÃO É DE AGORA 

Para o especialista Luiz Carlos Dias, professor titular do Instituto de Química da Unicamp e membro da força-tarefa no combate a covid-19, o impacto da quarentena de combate à pandemia do coronavírus que impõe o distanciamento social - influenciou na cobertura vacinal de 2020, mas o número de crianças e pessoas vacinadas vem caindo cada vez mais anualmente.  

"Claro que há o impacto da pandemia de covid-19, mas nós temos observado que até 2019 houve uma queda brutal na cobertura vacinal a de 2019, inclusive, foi considerada a menor dos últimos 20 anos", disse o professor, que usou a doença como alerta. 

"Nós vemos como o mundo está de joelhos para covid-19, se o mundo ficou de joelhos para um único vírus, imagina se não tivéssemos vacinas pra tantas outras doenças? É inadmissível que as pessoas, ainda mais agora, não pensem como seriam o mundo sem as vacinas", ressaltou. 

REFLEXOS NA CIDADE 

Segundo dados fornecidos pela Secretaria de Saúde de Campinas, até o balanço fechado de setembro, a cobertura vacinal da poliomielite, que tem como objetivo imunizar pelo menos 95% das crianças, ficou apenas em 71,8% da primeira dose para maiores de 1 ano.  

A vacina previne contra a paralisia infantil, doença que pode afetar tanto crianças quanto adultos. De acordo com a Prefeitura, a campanha em andamento desde o começo deste mês vacinou até agora apenas 28,5% do público-alvo. 

Já a vacina contra a hepatite B, que protege contra a doença de inflamação do fígado, tem 92,6% de vacinação, ainda abaixo da meta. Nos casos das vacinas de BCG e Rotavírus, em que a meta é de pelo menos 90%, a vacinação ficou em 81,6% na BCG, e em 85,3% na do Rotavírus. 

A vacina de BCG protege contra a tuberculose, enquanto o Rotavírus é uma infecção que causa gastrenterite aguda. 

Entre as doenças que antes já haviam sido erradicadas, Campinas ainda teve neste ano 28 casos de sarampo e dois de coqueluche. Ambas as doenças são prevenidas com vacinação. 

Para Dias, os números da cidade preocupam e mostram enfraquecimento da adesão a vacinação.  

Especialista Luiz Carlos Dias, professor titular do Instituto de Química da Unicamp e membro da força-tarefa no combate a covid-19 rebateu principais argumentos contra as vacinas (Foto: Reprodução de vídeo/ ACidadeON)

COMBATE  

"Nós não podemos deixar esse movimento crescer, essa recusa nunca foi tão forte, mas nunca foi tão forte como agora, e tem que ser combatida", afirmou. Segundo o professor, para ser eficiente, a vacinação tem que chegar próximo a 95% da cobertura, porque assim garante saúde dos vacinados e não vacinados.  

"De pólio, o índice tem que ser altíssimo, assim como de sarampo, porque se não acontece dos não vacinados se contaminarem. Essas doenças ressurgem pela baixa cobertura e tem alto risco de morte, quanto maior número de pessoas vacinadas menor chance de surtos", afirmou. 

Como alternativa, Dias afirma que é preciso que o poder público interfira e volte à ter uma campanha forte para adesão da população. 

"É preciso uma campanha nacional de vacinação, e o ideal é que parta do governo federal com auxílio das secretarias estaduais e municipais, para maior conscientização e combate na disseminação de mentiras, porque só com toda a comunidade vacinada podemos erradicar essas doenças e impedir que muitas outras voltem", afirmou. 

CAUSAS DA DIMINUIÇÃO 

Para o especialista, uma das causas da diminuição da vacinação é porque a população não tem mais contato com várias doenças já erradicadas, e por isso não enxerga a importância da vacina contra elas. 

"Muito é pelo sucesso das próprias campanhas anteriores, que levaram a erradicação de doenças e dão uma falsa sensação de segurança, porque as pessoas não conviveram com essas doenças, e acham que não existem, e não existem por causa da vacina, mas o vírus continua por aí", afirmou.  

FAKE NEWS  

Entre as mentiras sobre vacinas que circulam nas redes, há boatos de que elas podem causar autismo, depressão, homossexualidade, má formação do corpo e dos órgãos, infertilidade e uma infinidade de outros argumentos- nenhum deles com comprovação científica. 

"Já ouvi vários absurdos referentes a vacinas", disse o professor. "Já ouvi que elas provocam alteração do DNA, que o Bill Gates (criador do Windows) está envolvido em várias delas, que elas carregam chips, que elas causam autismo, que elas contêm mercúrio, que são feitas de fetos abortados, que elas não são eficazes, que elas são perigosas, são várias as teorias da conspiração", disse. 

Dias explica que o boato de que vacinas causam doenças surgiu em 1998, quando o então médico britânico Andrew Jeremy Wakefield publicou um artigo na revista científica The Lancet relacionando a vacina tríplice viral (que previne o sarampo, caxumba e rubéola) a casos de autismo em crianças. 

O artigo foi posteriormente despublicado pela revista e o estudo considerado antiético, construído com informações falsas e sem qualquer evidência. Wakefield teve a licença médica cassada pelo governo britânico por conta disso, mas o boato criado por ele paira até os dias de hoje.  

"Também há boatos que elas causam infertilidade", disse o professor. "Isso foi uma teoria da conspiração que incluiu até mesmo o nome do Bill Gates, criador do Windows. Isso por causa de um projeto de conscientização pelo planejamento familiar iniciado há alguns anos pela fundação Bill & Melinda Gates na África".  

"Essa conspiração envolveu a igreja católica, alguns movimentos anti-aborto presentes na África e nos Estados Unidos que começaram a disseminar notícias falsas de que hormônios eram injetados nas pessoas quando elas tomavam vacinas antitetânicas, o que afetava principalmente as mulheres africanas para o controle populacional. Isso se mostrou uma mentira".  

Outro argumento usado é no caso da vacina contra a gripe, de que ela "não funciona, porque todos pegam gripe". O professor explica que a vacina é eficiente e necessária em todos os anos, por causa do vírus que sofre mutação.  

Em meio aos boatos, Dias enfatizou importância das vacinas e das campanhas de vacinação. "As vacinas são extremamente eficazes, elas salvam cerca de 3 milhões de vidas por ano, cerca de cinco vidas por minutos. É essencial que a gente possa, neste momento, não deixar este movimento antivacina crescer", disse. 

VEJA O VÍDEO DO ESPECIALISTA COMENTANDO OS PRINCIPAIS BOATOS SOBRE AS VACINAS  


CORONAVÍRUS 

O professor comentou ainda sobre os boatos e mentiras que se espalham sobre as vacinas contra a covid-19 que seguem em desenvolvimento. 

A Unicamp testa em Campinas CoronaVac, vacina desenvolvida em parceria entre o Butantan e a farmacêutica chinesa Sinovac, e a PUC-Campinas será um dos centros de pesquisa de uma vacina em desenvolvimento pela Johnson & Johnson. 

Segundo Dias, uma vacina pode levar de seis a dez anos ou até mais para ser desenvolvida - a vacina que teve o menor tempo de desenvolvimento até hoje foi a da caxumba, que levou uma média de cinco anos para ser completa. 

Ele aponta que, de fato, o desenvolvimento das vacinas contra a covid-19 é muito rápido, mas há motivos para isso: um deles é o intenso trabalho de pesquisas e o outro o alto investimento. "Nós temos quase 200 candidatas vacinais para o covid-19. Nunca se viu nada parecido na história da ciência. Isso só leva a uma aceleração das etapas", contou.  

Ele cita a vacina de Oxford e do Butantan como exemplos de velocidade, pois se basearam em estudos de vacina para o Sars (Síndrome respiratória aguda grave) e o Mers (Sindrome respiratória do Oriente Médio). "Eles simplesmente adaptaram as tecnologias que eram utilizadas para essas doenças que não viraram pandemia e isso tornou mais rápido o processo de desenvolvimento dessas candidatas vacinais", explicou. 

Além disso, Dias explica que muitas vacinas fazem etapas do processo em paralelo. "Hoje, no caso da covid-19, as etapas do processo de desenvolvimento da vacina são feitas em paralelo. Isso acelerou muito o processo, mas é importante lembrar que isso não é pular etapas, pois não se pode pular etapas, e sempre respeitando muito os fatores de segurança".  

Apesar dos avanços, somente um ensaio de fase três, testado em milhares de pessoas de diversas etnias, idades e sexos, poderá dizer se a vacina em questão é boa o bastante para imunizar a população. Resta aguardar.  

Na semana passada, a vacina do Butantan foi alvo de politizações e briga entre o governador de São Paulo, João Doria (PDSB) e o presidente Jair Bolsonaro. 

Enquanto Doria afirma que até o final do ano almeja disponibilizar a vacina para a população, e falou da aplicação obrigatória, Bolsonaro negou obrigatoriedade e voltou atrás após o Ministério da Saúde anunciar a compra da CoronaVac.


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