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A vida rural que ainda resiste em Campinas

A poucos quilômetros do centro urbano, uma realidade quase intacta de um povo

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Gustavo Abdel
Zona rural de Campinas

Na região mais ao Norte de Campinas, a poucas porteiras do limite com o município de Jaguariúna, Nelson, Pedro e outros funcionários da Fazenda São João do Atibaia fazem uma breve prosa na porteira após finalizar o conserto de um trecho de cerca.

A poeira do estradão de terra contamina os poros a cada motor que encara uma fuga do pedágio na Rodovia SP-340 (Campinas-Mogi Mirim), a maioria dos casos por ali. Pouco a frente de onde está o grupo, um ‘oásis’ de asfalto de pouco mais 50 metros de extensão reflete uma promessa política antiga, e há muito esquecida.

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Menino da porteira, Iuri, 4 anos, é a nova geração dos moradores rurais de Campinas (Foto: Gustavo Abdel/ACidade ON)

Com a tropa, o pequeno Iuri, de 4 anos, pendurado na porteira como querendo imitar Pedro e os demais na rédea dos cavalos, diz, tímido: “Quero trabalhar na fazenda”. Pedro Alves, de 61 anos, de cima da égua sem nome, sorri da ingenuidade do menino.

“No campo ainda temos a tranquilidade, é verdade. Mas já tivemos tempos melhores”. Há 30 anos como chefe de estabulo na fazenda São João, Pedro e os demais do grupo nasceram ou viveram muito tempo no bairro Carlos Gomes, a mais antiga vila rural campineira. Mas entre eles, a certeza é que aproximação dos grandes empreendimentos trazem para perto os temores da insegurança amedrontada por quem vive no asfalto.

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Nelson é o mais antigo funcionário da Fazenda São João do Atibaia

CENTRO DE CAMPINAS?

“O avanço da cidade é muito rápido. Eu morei e trabalhei muitos anos na Fazenda Terezinha, mas em 1991 tivemos que sair por que começaram a lotear o Jardim Miriam e também o Alphaville. Fomos nos aprofundando”, lembra Pedro. E de tanta aproximação da metrópole com o campo, Pedro, Nelson e os demais foram recuando até encontrarem segurança em casas embrenhadas em pastagens.

“Faz pelo menos cinco anos que não vou ao Centro (de Campinas). Plantamos, trabalhamos, e vivemos sem precisar da cidade”, orgulha-se Pedro. “As poucas linhas de ônibus também dificulta a nossa ida toda hora. Tenho medo”, confessa. Nelson Luis, de 76 anos, o mais antigo da comitiva, também não sabe o que é parar em um semáforo a cada esquina. “Aqui o cavalo é nosso transporte. Pego no volante somente para ir no supermercado”.

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Pedro Alves não vai há 5 anos para o centro urbano

ÊXODO URBANO

Da porteira da fazenda São João até adentrar nos bairros pavimentados de Campinas não passam 12 quilômetros. Distância que o casal da Silva não viu qualquer dificuldade em encarar ao mudar-se, há 18 anos, para o bairro Recanto dos Dourados – próximo da fazenda onde estavam Pedro e os demais. “Saímos da cidade depois que eu aposentei. A gente queria um lugar sem barulho, sem movimento”, contou Osvaldo.

Mas durante 15 anos no meio rural desempenharam mesma atividade de motoristas que faziam em roteiros escolares no Centro. “Começamos a transportar as crianças até as escolas rurais, mas com um outro ritmo, em uma vida mais tranquila”, relembra Ana Romera, de 75 anos, que após retirar remédios no posto de saúde reencontrou Osvaldo na pracinha do núcleo povoado de Carlos Gomes.

“Quase não saio da nossa redondeza, a não ser para uma compra em algum atacadão na Dom Pedro (rodovia), ou para ver nossas filhas”, completou.

Gustavo Abdel
Osvaldo e Ana: mais de 18 anos no Recanto dos Dourados

POUCOS E RESISTENTES

De acordo com o último senso do IBGE, está considerada como população rural de Campinas pouco mais de 19 mil pessoas, que vivem distribuídos em cerca de 70% de território rural que forma o perímetro urbano de 797 quilômetros quadrados. Perto dos 1,1 milhões de habitantes, os rurais parecem seguir cada vez mais isolados e resistentes ao avanço.

Foi pela segurança que o ex-dono de panificadora Li Moreira, de 60 anos, trocou o Parque Brasília para viver como produtor de animais no Recanto dos Dourados. “Me motivou vir para cá foi o medo de continuar na cidade”, disse. Com as mãos na rédea do garanhão Titan, Li observava as netas brincarem na praça central do núcleo Carlos Gomes.

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"O sossego está acabando", diz Li Moreira

“Hoje em dia aqui está bravo também. Toda semana acontece um assalto”, relata, em voz baixa Moreira ao conhecido João de Oliveira, de 83 anos. “Estou há 18 anos aqui, não vivo em outro lugar”, garantiu Oliveira. Ambos avaliam que a procura de novos moradores a áreas rurais diminuiu nos últimos 10 anos, em função da falta de recursos e a demora deles para as áreas menos populosas.

TRANSFORMADORES

Gustavo Abdel

Dona Nana e Claudionor: luta para melhorias do bairro


Quem concorda com a opinião dos cavalheiros que se agrupam em frente ao seu comércio é Maria Ananias Ferreira de Souza, de 68 anos. Há 45 anos instalada no Carlos Gomes, a paulistana adotou o bairro e luta com voz alta e enfrentamento das autoridades. “Tem gente da Prefeitura que passa longe de mim”.

Foi Dona Nana quem colocou mais de 50 pessoas daquele bairro dentro da Assembleia Legislativa do Estado para reivindicar a construção de uma escola no Carlos Gomes. “Arrumei um ônibus e fomos cobrar dos deputados, na primeira gestão do governador Mario Covas. Conseguimos, graças à força de todos”.

Com o marido Claudionor Ferreira dos Santos, de 77 anos, Dona Nana toca o bar num ritmo ditado pela tranquilidade dos saguis que vão comer frutas nas árvores que circulam o seu centenário estabelecimento. “Aqui ainda temos paz”, diz.
 

Gustavo Abdel
Estrada rural que liga Campinas a Jaguariúna



 

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