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Vitoriosos: recuperados da covid-19 nomeiam cura como renascimento

Pacientes que ficaram internados com a doença contam como lidam após a recuperação

| ACidadeON Campinas

Eunice foi uma das recuperadas na cidade, e saiu aplaudida do hospital (Foto: Reprodução de vídeo)
Campinas registra até esse domingo (5) a marca de 9.610 casos do novo coronavírus na cidade, sendo no interior de São Paulo o município com mais casos confirmados da covid-19, registrando ainda 362 vítimas fatais. Entre os tristes números da doença e a preocupação em meio ao aumento dos casos das últimas semanas, com o retorno da região a fase vermelha da flexibilização, estão as histórias de superação e esperança de quem conseguiu superar a doença. 

Entre os mais de 9 mil casos confirmados da doença em Campinas, a cidade passou também nesta semana a marca de mais de 7 mil recuperados. Hoje são 7.724 pessoas que se curaram. Esse número representa que 80,3% dos contaminados já estão livres da doença.  

Entre as pessoas recuperadas ouvidas pelo ACidade ON, muitas dizem ter "nascidos de novo" após a recuperação. Esse é o caso do técnico de enfermagem Gustavo Hernandes Lourenço, de 38 anos, que apesar de não fazer parte do grupo de risco e não apresentar doenças prévias, ficou internado por 13 dias após se contaminar. Desse total de dias, durante 12, ele ficou na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) em estado caso grave.  

Gustavo faz parte dos 1.407 profissionais da saúde que já se contaminaram em Campinas, de acordo com o último boletim epidemiológico da Saúde. Muitos, como ele, acabaram se infectando com a doença durante o trabalho. Ele conta que tem como objetivo levar a sua história como esperança para as pessoas que estejam em momentos difíceis, como os que ele superou.   

Gustavo (no centro) com colegas de trabalho antes da pandemia (Foto: Cedida)

"Eu me sinto vitorioso por ter conseguido lutar contra essa doença, que não tem parâmetro nenhum. Eu batalhei, recebi muita força de familiares, amigos e colegas que estavam ali, e agora quero ser exemplo, dar a minha palavra para aqueles que estão doentes para levar um pouco de fé e força para que as pessoas acreditem que podem sair dali", declarou. 

O técnico de enfermagem, que atua em dois hospitais particulares de Campinas, disse que já imaginava que em algum momento pegaria a doença por causa do trabalho, mas não imaginou que ficaria em estado grave. Durante a internação, ele conta que ficou com o pulmão 75% comprometido, e só não foi entubado após relutar contra a vontade dos médicos. 

"A gente vê nas notícias que grupos de risco são idosos, pessoas com problemas de saúde, que são a maioria, mas há muitos casos de jovens também. No meu caso, nunca tive nenhum problema de saúde. Jamais pensaria que tivesse, e que ficaria daquele jeito. A ficha só foi cair depois, quando vinham me falar que eu quase morri", contou.    


 
SENSAÇÃO DE QUASE MORTE 

Ao contrário de Gustavo, que durante a internação tentava não pensar na morte, o gestor de treinamento André Henrique Pereira, de 32 anos, ficou dez dias internado na UTI também em Campinas, conta que pensava na família quando teve a piora do quadro, o que acabou gerando força para se recuperar.  

"Eu nunca tive medo de morrer, mas todo tempo eu pensava na minha filha de oito meses. Em não ter a oportunidade de ver ela crescer. Deus me livre se morresse sem vê-la, essa era a minha maior preocupação", declarou.  

André com a filha, de 8 meses (Foto: Arquivo Pessoal)

André, que também não fazia parte do grupo de risco e não tinha nenhuma doença prévia, conta que nunca pensou que iria passar por algo semelhante, e acredita ter renascido após a recuperação.  

"Eu lembro do dia em que eu sai da UTI, vi um rapaz entubado e passou um filme na minha cabeça, pensando se ele iria assim como eu, conseguir sair dali. Na hora que saí do hospital, vi o céu, vi as pessoas, eu nasci de novo. É uma doença que está matando muita gente, e pensar que a sai dela depois de passar por tudo. De algo que nunca pensei que ia acontecer, é uma sensação indescritível", disse.  

A UNIÃO FAZ A FORÇA 

Ao contrário de Gustavo e André, que ficaram internados sem fazerem parte do chamado grupo de risco, o casal de aposentados José Roberto Reducino, de 64 anos, e Eunice Reducino, de 63 anos, se contaminaram após uma viagem, e já com doenças prévias e internados, tiraram força da união entre eles, para conseguir superar a doença. 

José ficou internado dez dias no hospital, e a esposa oito. Os dois não chegaram a ir para a UTI, mas isso não diminuiu o medo de um perder o outro, após 42 anos de casamento.  

"Eu fiquei com muito medo. O quarto tinha televisão, e a gente não parava de ver os casos aumentando e o tanto de gente morrendo. A gente sabe que passar de uma fase para outra, para uma piora é muito fácil", disse Eunice.  

José também teve o pulmão comprometido, e conta que no quarto dia de internação quase foi para a UTI. Após uma melhora no quadro, o hospital decidiu por colocar marido e mulher no mesmo quarto, como tentativa para um ajudar o outro. 

"Teve dias de eu estar entregue. Mas depois que ela chegou começamos a melhorar. Ela olhava pra mim, nós dois nos apoiávamos. Ajudou muito para criar força para sair dali". disse ele. 

José Roberto e Eunice durante a viagem para Fortaleza (Foto: Arquivo pessoal)

 
Para tranquilizar a família, os aposentados contam que chegavam a mentir para os netos, para evitar preocupação.
"A gente falava que não era covid não. Que era uma pneumonia, o que não deixava de ser também. A gente, a todo tempo negava, porque para eles covid significava morte".  

TESTEMUNHOS 

André, hoje recuperado e já de volta ao trabalho, conta que teve na família mais dois casos da doença, entre eles um infelizmente veio a óbito. Após a experiência, André conta que ainda se preocupa e se protege para evitar nova contaminação.

"Infelizmente o ser humano só passa a abrir os olhos depois que acontece com ele ou com alguém da família. Eu falava que minha esposa tava ficando doida, tomava cuidado mas nem perto do que tomo hoje. Só quem pegou sabe como é, e não se tem certeza ainda se a gente não pode pegar de novo. O meu pulmão ficou debilitado, e eu não posso correr mais risco", declarou. O gestor ainda mandou um recado para as pessoas. 

"Para quem pegou, que redobre os cuidados. E quem ainda não pegou, que tripliquei. Não vale a pena correr o risco e pagar para ver. Não é algo que desejo a ninguém, e por isso tem que se cuidar", defendeu. 

José, como idoso que passou pela doença, declara que agradece diariamente pela conquista da recuperação.
"Depois que passou tudo eu sou uma pessoa com muita fé, isso me ajudou bastante. Não é 'gripezinha'. Só quem pegou sabe, e somos vitoriosos por termos saído. Hoje em dia, olhar tantas covas, tantas famílias sofrendo, quem passou tem que levantar as mãos e agradecer a Deus", declarou. 




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